terça-feira, 13 de março de 2018

1960 – Tudo Vai Mal (Seijun Suzuki, Japão) **** (4.0)


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Primeiro longa de Seijun Suzuki, a pérola e a decadência da Nikkatsu. Produzindo filmes na velocidade da luz entre os anos 1955 e 1967 pela produtora Nikkatsu, o diretor japonês, foi responsável por retratar com uma energia incontrolável a perspectiva dos jovens de sua geração, além de produzir muito filmes encomendados de máfias, supostamente genéricos. Porém, com sua habilidade visual sempre subvertia a simplicidade de seus enredos. Acompanhando neste longa em específico a vida de Jiro, um jovem que tenta mudar a situação de sua mãe, já que não gosta dos homens que ela vem saindo, envolvendo-se então com a máfia.
             
A abertura do longa é a de um suposto filme de guerra japonês, demonstrando o que ainda se passava na cabeça dos sujeitos desse tempo, logo depois, com um raccord, os jovens saindo das sessões e esboçando aquela masculinidade pueril. O Japão que é retratado aqui é um país americanizado, o Jazz está em todo o lugar, a música americana está em todo lugar. A forma de agir dos jovens, muito mais solta e inconsequente parece ser uma consequência da força com que a cultura americana adentrou no pós-guerra no país. Até mesmo a forma de se vestir dos jovens, algo mais despojado em comparação aos quimonos dos mais velhos, ou dos ternos sérios.

Com uma câmera sempre em movimento, seguindo alguns poucos personagens pelas ruas. Suzuki consegue criar uma forma livre para expor os hábitos e gestos dessa cultura jovem japonesa, filmando na rua mesmo, o que constrói um senso muito forte de realismo. Com muito planos longos para que seja possível conhecer esses personagens e sua relação com o meio. Por vezes alguns zooms absortos, ou movimentos de câmera avulsos sugerem uma referência estética na Nouvelle Vague. A estranheza, a angústia da juventude do país como era expressa em Acossado de Godard, aparece aqui de uma maneira diferente.

Porém, ao invés de obtermos caminhadas e rapidamente a violência da juventude, em Tudo Vai Mal existe um movimento inquietante de seus personagens. Muito caracterizado pelo Jazz, é uma euforia que comanda o que os jovens querem, além de demonstrar que vontade de liberdade não configura muito um progresso das relações hierárquicas da sociedade. Pois o que movimenta Jiro em mudar de vida é muito mais um sentimento de posse sobre todas as mulheres com que se relaciona do que uma emancipação de fato. A opressão masculina é muito presente em todas as relações.

Organizando as relações dos personagens se têm Jiro querendo controlar a relação de sua mãe com o sr. Nanbara, pois é este senhor quem banca seus gastos e a do seu filho, mas no fim, ele nunca aceitou terminar seu casamento real para assumir essa amante. Além disso, existe Etsuko, uma jovem que está grávida e como o namorado não tem condições financeiras o suficiente, ela luta por diversos meios para conseguir um dinheiro para um aborto.  É no enlaço desses quatro personagens que o se conota a presença desse paternalismo pesado sobre a sociedade japonesa. Suzuki já expressa aqui a força de sua mis en scene, compondo algumas cenas impressionantes e sugestivas.

Além disso, a relação quase como Bonnie e Clyde que Jiro desenvolve com Toshima é bem interessante, pois os dois parecem não ter planos de fato, apenas agem e reagem pelas consequências de suas ações apaixonadas. Exatamente quando esses dois personagens se encontram juntos que o estilo de Suzuki se revela mais forte, os movimentos são mais abruptos, a experimentação com o zoom se torna mais absurda, é como se eles fossem os principais motores da euforia narrativa. Eles a todo momento buscam acabar com as leis que regem os corpos, porém por caminhos tão individualistas, tão egocêntricos que se perdem em uma confusão.

Por fim, a última sequência faz um comentário já interessante sobre a alienação em relação a que histórias querem escutar, ao que querem os jovens. Fechando de forma coesa o longa, se de início se tem o filme de guerra no cinema, no fim, se tem uma nova história no Jornal. As duas mídias tornando visíveis o querem os japoneses no ano de 1960, histórias de amor, de guerra? O que Suzuki entrega também em formato de mídia é uma mistura disso com um toque de reflexão social.

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