segunda-feira, 19 de março de 2018

2017 – Marjorie Prime (Michael Almereyda, EUA) **** (4.0)


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Este longa traz um belo conceito, que poderia muito bem ter sido utilizado por Black Mirror (de certa forma foi). Com atuações extremamente bem orientadas e uma discussão tão pertinente quanto contemporânea, o filme esboça um triste retratado do que poderá ser nosso futuro. Numa casa próxima à praia, Marjorie, em seus 86 anos, vive com o Alzheimer, sua filha compra um novo aparelho de holograma, que reconstrói o seu falecido marido para estimulá-la a lembrar.
            
Almereyda fez um trabalho fantástico com essa peça. Sim, é notório, por conta do espaço reduzido, do foco intenso no diálogo, na encenação, na própria atuação que essa história foi concebida a princípio para o teatro. Mas o que o diretor faz aqui é impor uma montagem tão singela, leve e poética, que a obra à sua forma só poderia ter sido produzida pelo cinema. Ela produz uma concatenação de planos simples, mas que conduzem com um olhar profundo acerca da memória de sua personagem. Atravessando por entre um aspecto mnêmico até um futuro, um presente, sempre avançando no tempo, montando de forma praticamente indiscernível a passagem do tempo e da dor que é perder alguém, o processo do luto. A fotografia do filme ajuda a criar esses aspectos, quando utiliza muito bem de sua iluminação, sempre estourada entrando pelas janelas, ou ainda, por conta das chuvas que preenchem os efeitos sonoros, obriga o ambiente a ser iluminados por luzes artificiais e até mais íntimas, já que não abrangem um grande espaço.  Em contraposição a esse efeito de natureza, a ambientação de toda a casa de Marjorie parece ser de um modernismo artificial, em sua paleta de cores blasé, o que sempre traz à tona de certa forma uma das questões que desejar abordar, o artificialismo tecnológico.
            
Com isso, Marjorie, interpretada por Lois Smith, sempre sentada, com uma feição cansada, mas que em seus olhos consegue expor alguns vislumbres de vida, dialoga com seu marido mais jovem, interpretado com olhar sereno e muitas artificial de John Hamm. Essa foi uma tentativa de sua filha para que sua mãe tivesse algumas de suas memórias de volta, já que havia percebido o quanto o Alzheimer havia piorado com a morte de seu pai. É interessante como parece que o holograma de seu marido realmente a conhece, mas ela sempre percebe suas falhas quando, de certa forma, ele parece melhor que um ser humano. Por meio da palavra, mas não pura, pois as atuações encarnam e crescem diante dos planos longos do diretor, a memória dela é revisitada. Além é claro, de como já dito, a montagem flui de forma que a imagem não se torne enclausurada ou enfadonha, sempre completa as sensações e forças dos movimentos intensos de diálogos. Tess, sua filha, interpretada por Geena Davis, sempre discute com seu marido Jon, interpretado por um Tim Robbins sensacional, sobre se essa estratégia é boa ou ruim, se isso atrapalha o luto, ou ajuda no Alzheimer, é um impasse que é muito comum ao ser falar de velhice na contemporaneidade.
            
No fundo sssa discussão vai além de um impasse, começa a explorar as minúcias das representações da memória. Por vezes usando da televisão, no qual o tempo todo assistimos a hologramas dos que já morreram, o holograma do longa parece mais uma evolução disso. Todos os personagens, por mais que entendam que eticamente é complicado negar a morte, pois é ela que constitui o sujeito, é isso que observamos no filme e até mesmo hoje em dia. A paixão fala mais forte quando nos sentimos desamparados. Parece existir até mesmo uma discussão próxima a do seriado Black Mirror, mas bem antes do choque e do destrinchar da crítica que fazem parte do projeto dessa outra obra, Marjorie Prime adentra o tema com muita delicadeza, fazendo o tempo fluir de maneira impressionante. A artificialidade e a indiscernibilidade entre o que é realidade e o que é holograma acabam fazer, por vezes, o tempo não existir e isso é angustiante. Para criar um tom coerente a obra, não só músicas que remetem ao passado foram usadas, assim como uma trilha sonora original composta por Mica Levi, que sempre encanta, sua composição tem um peso belo e conduzem junto à montagem a fluidez necessária para a narrativa.
            
Portanto, esse novo filme de Michael Almereyda é uma elegante jornada sobre o que é memória, o que é morte e o que é luto, certas composições que são essenciais a um ser humano. Contendo atuações ótimas de todo o elenco e um trabalho técnico muito bem realizado. Talvez inevitavelmente canse, pois estende de forma surpreendente (no bom sentido) o seu tema, mas aí está uma das singularidades dessa obra.

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