terça-feira, 6 de março de 2018

1960 – A Doce Vida (Federico Fellini, Itália) ***** (5.0)


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A vida pode causar um alvoroço quando retratada com tamanha poesia como aqui. Fellini viaja por diversas temáticas de sua época na Itália, seja a religião, os ricos, os intelectuais, os artistas, o jornalismo, a família, buscando demonstrar a própria crueza e vazio de sentido que existe na vida. Sim, existe um onirismo forte, uma burlesco por vezes, mas existe aqui uma crueza em determinados momentos, pura influência do neorrealismo italiano, que é a força motriz do doce vazio de sentido. Narrando a história de Marcello que é um jornalista de tabloides, acompanhado de Paparazzo, seu fotógrafo, procura as notícias mais superficiais e corriqueiras para conseguir dinheiro.
            
Assim como os Boas-Vidas e, de certa forma, todos os filmes que precederam este, existe aqui uma estrutura em episódio, na qual algumas das narrativas retornam em alguns poucos momentos. Assim, existe alguns episódios que devem ser analisados separadamente, e outros em sua própria mistura.
            
Logo de início, existe uma espécie de prólogo, extremamente divertido, que já põe em questão a ilusão do sentido, em que uma inusitada estátua de Cristo viaja pelos céus de Roma, conectada por cordas a um helicóptero. Abençoando a cidade com suas mãos de pedra. Assim, somos apresentados ao estilo de Marcello, interpretado com uma entrega total por Marcello Mastroianni, transitando perfeitamente entre uma montanha-russa de emoções, de forma extremamente condizente, além de um gesto real e forte.
            
No primeiro episódio de fato, Marcello se encontra num salão de festa, na qual uma apresentação ocorre, ele está farejando alguma notícia atrás dos socialites. Encontra com Madalena, uma antiga amiga, uma mulher extremamente rica, interpretada por Aonuk Aimée. Os dois já tiveram relações antes e assim resolvem partir para uma aventura. Enquanto ele se encanta e se diverte por Roma, ela vive num tédio eterno de já ter visto tudo que precisava. Mas Marcello não é solteiro, ele tem uma mulher chamada Emma, que enquanto ele está perdido no hedonismo desorientado, tenta se matar. Logo aqui, é apresentado uma questão forte em relação aos relacionamentos, sobre como eles podem ferir, como eles podem matar.
            
Assim, este primeiro episódio ajuda a entender como o protagonista deixa-se levar, quem ele é, quem o rodeia. No segundo episódio, logo, Fellini satura a imagem quando enche o plano com paparazzis, aliás, foi por conta deste filme que o conceito surgiu. Eles estão causando um alvoroço no aeroporto para a chegada da atriz americana Sylvie, interpretada com uma áurea mágica por Anita Ekberg. Com isto, Marcello passa o dia o inteiro ao lado dessa estrela para conseguir notícias. Esse segmento é recheado de danças, diálogos sobre as superficialidades do star-system americano, que transforma artistas em celebridades. O momento mais marcante é aquele de certa rachadura na ilusão, em que Marcello e Sylvie estão na famosíssima Fonte di Trevi, e como nos sonhos, ela deixa ser beijada, mas com um corte e o surgimento de um silêncio absurdo, a noite se foi, a água para de jorrar. Fim da ilusão, a beleza é só uma miragem.
            
Retornando à temática da religião, Marcello e Emma vão presenciar as crianças que conversam com santos. Este segmento é carregado por uma loucura imensa, pois os planos se movem a partir da intensidade da multidão cheia de fé na brincadeira de algumas crianças, numa chuva e intensa lama que constrói um verdadeiro cenário de agonia. Pois num país tão conectado com a religião católica, se as crianças falam com santos, torna-se um espetáculo. As pessoas precisam se alimentar disso.
            
Dois outros segmentos se conectam por uma força impressionante a dos intelectuais e a da aristocracia. Marcello tem um grande amigo chamado Steiner, um homem culto, artístico, estudioso, algo que o protagonista almejou ser. Quando ele escolheu fazer jornalismo, de fato, gostaria de estudar sobre o mundo, fazer notícias importantes, mas não conseguiu seguir por essa vida. Bem, os dois se encontram em sua casa, num encontro de amigos e discutem diversas coisas, é uma sequência que carrega certo mistério e melancolia por parte dos personagens, enquanto Marcello se vê encantado por tudo que seu amigo, ele parece descontente, deixa escapar uma tristeza, um pessimismo acerca do mundo terrível. O outro segmento é da festa no castelo, no qual ele se encontra com uma antiga amiga que conhece alguém da família real, assim, o protagonista se encontra com a mais alta aristocracia que não se importa muito com a História, apenas para mais um hedonismo desorientado. Talvez este segmento seja aquele com a maior força na decadência dos sujeitos daquele tempo.
           
Além disso, existem outros segmentos, no qual Marcello se encontra com seu pai, com uma tristeza por ter sido um homem ausente e praticamente não reconhecer aquele, assim como em perceber como sempre fez o mesmo. Alguns personagens dos episódios tendem a retornar inevitavelmente, as peripécias e lutas no relacionamento com Emma, Steiner e sua tristeza transita em alguns momentos, além de Paola, uma jovenzinha que trabalha num restaurante. Marcello a conhece quando havia fugido de Roma para ter paz e escrever, tentar se tornar um escritor. Lá, ele ficou impressionado com a presença da garota, pela sua beleza angelical e sua inocência explícita nos olhos. Ela reaparece no último segmento, na praia, quando Marcello e seus amigos, após uma festa se deparam com uma criatura estranha encalhada na praia. Parecendo com uma arraia. O encontro é realizado com uma falha de comunicação, ele não a entende, não consegue escutar mais a voz da inocência, da pureza.
           
Veja bem, cada segmento vai demonstrando como grande parte da população busca suas próprias ilusões de sentido para viver, seja a religião, seja as imagens de beleza, seja uma vida intelectual, seja o hedonismo, todos buscam esse sentido. A doce vida na verdade tem um gosto amargo no fim. Fellini conduz todas as sequências com muita mobilidade na câmera, assim podendo transitar facilmente por seus ambientes abertos, saturando imensamente os enquadramentos, aliás, o número de acontecimentos por segmento é enorme, tudo está vivo e Fellini os apresenta com um tom absurdo, estranho e forte.
            
Apesar de ter destrinchado de certo modo o enredo e suas formas narrativas, o filme é bem maior do que é a breve análise feita. Fellini com certas figuras de ação, com certos movimentos de personagens, parece trazer à tona um pathos inegável dos sujeitos. A tendência à derrocada inevitável de alguns personagens, os caminhos feitos, sempre fugas que soam absurdas, mas são como buscas de sentido. É nesse descompasso entre sem sentido e sentido que o filme se desenrola, é assim que a arraia surge como criatura do sem sentido e falha da comunicação acontece enormemente pelas restrições do próprio sentido.
            
Quando este filme foi lançado, Fellini foi atacado de todos os lados pela sociedade italiana, considerado vulgar, absurdo demais, por mais que mundo a fora tenha sido agraciado pela crítica. Vencendo até mesmo a Palma de Ouro. Tantos comentários ruins em sua terra o fizeram começar uma análise, com um psicólogo junguiano, o que o levou à 8 ½.
            
Portanto, A Doce Vida é um dos mais belos e poderoso trabalhos de Fellini, belo por eloquentemente transpor um espirito de uma época, de demonstrar o doce e o amargo misturados. Uma incursão forte ao mundo das ilusões que sustam os sujeitos e uma cartografia do vazio de sentido.        

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