terça-feira, 27 de março de 2018

2017 – Planeta dos Macacos: A Guerra (Matt Reeves, EUA) **** (4.0)


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Planeta dos Macacos é uma das franquias mais longevas de todas, iniciada em 1968, contendo diversos filmes e séries. É interessante pensar o que permanece intrigando os espectadores com essa história. Há de se dizer que a continuidade entre os filmes não é algo muito bem realizado, porém essa nova trilogia que começou em 2011 se fecha com uma força bem grande, tanto no que diz respeitos aos efeitos técnicos, quanto na emoção trazida nas atuações, e principalmente, a expressão da natureza que o filme traz. Portanto, A Guerra traz um mundo ainda mais vazio e destruído que o filme anterior, na qual os macacos tentam viver em paz com os humanos, escondidos, porém uma doença inesperada faz surgir um novo confronto.
            
Talvez o título a guerra, em sua superfície, atraia espectadores loucos para assistir grandes sequência de ação com confrontos bélicos intensos, porém a guerra que o filme apresenta é muito mais sutil.  Caesar vive longe dos humanos, em suas próprias construções, apesar dos macacos por inteiro não falarem, ele fala com uma eloquência gigante já. Por isso mesmo é um líder e por isso as expectativas por seus acertos e erros são engrandecidas. Vivido por Andy Serkis, em sua melhor forma, se nos longas anteriores impressionava por saber fazer uso, com toda sua expressividade corporal, da captura de movimento, aqui ele vai por completo além disso. A técnica da captura de movimento se encontra ainda mais bem realizada e a atuação de Serkis, tanto com sua voz que esboça o cansaço, mas a resistência do seu personagem, quanto a potência de seu rosto, seu olhar, que são cada vez mais exigidos aqui. Reeves sempre impõe close-ups em que o rosto do macaco com sua tristeza é muito poderoso. Ele ainda é acompanhado por Maurice, o orangotango interpretado por Karin Konoval, com aquele toque singelo, junta-se a ele no decorrer do longa o alucinado Bad Ape, interpretado Steve Zahn, que parece viver num pesadelo.
            
Do outro lado, os soldados caçam Caesar para exterminar com os macacos o quanto antes, porém se eles estão vivendo separados, como podem um atrapalhar os outros? Bem, a natureza em sua história já apresentou as consequências da seleção natural, é isso que começa a acontecer. Sem entrar em detalhes sobre exatamente o que ocasiona tal investida, é possível resumi-la num efeito natural. Assim, comandados pelo Coronel, interpretado por Woody Harrelson, imerso numa fantasia de eugenia, seus gestos são muito bem captados pela forma que Reeves o enquadra, a intensidade dos olhos e até mesmo a sua postura, quase sempre filmada de corpo inteiro o transformam numa figura de certo assustadora. É ele quem ataca os macacos primeiro, é um ato de sobrevivência absurdo. Pois a natureza mexeu suas peças e não há nada que possa controlá-la.

Tendo esse cenário intenso entre os humanos e macacos, o diretor constrói sequência de ação primorosa. Logo a primeira sequência do filme, na qual os soldados encontram ao longe os macacos, e num ataque às escondidas tentam exterminá-los. Numa lentidão para construir suspense, a câmera acompanha os capacetes verdes, numa imensidão de floresta. Até o ataque se iniciar, nunca utilizando de câmera tremidas, Reeves demonstra de forma bem direta e organizada tudo que acontece na floresta, entre os homens e macacos. Trabalhando sempre com um bom uso dos efeitos especiais também, a ação do longa sempre é bem orientada, nunca confusa e extremamente bem realizada, o que significa que elas conseguem trazer a carga de emoção e sensação necessárias para que se tornem relevantes para o que o filme deseja expressar.

Matt Reeves fez um filme corajoso. Dentro do quartel do Coronel, todo o sofrimento que os macacos passam lá dentro lembra e muito com as ações do fascismo e nazismo, o próprio cenário corrobora para tal fato. Os pequenos espaços, os trabalhos compulsórios, a neve e a fumaça que se encontra em todo lugar. Além disso, os humanos colocam os macacos para produzirem uma muralha, o que me lembra um certo sujeito contemporâneo que diz que vai construir um muro com o trabalho dos outros. Um muro construído com ajuda daqueles que se quer afastar. Eis uma visão complexa e triste, que deixando claro, não é uma alegoria, mas apenas uma referência ao perverso.

O que mais se torna presente neste último filme da trilogia é muito mais que culpa dos humanos pela própria derrocada, destituiu-se o primado da responsabilidade humana, e traz à tona o papel da natureza ao redor. O que não quer dizer que os humanos perdem os dedos deles na construção do problema do filme, porém demonstra, principalmente, que existe uma força da natureza que é incontrolável. Seja pelos diversos ambientes naturais por quais os personagens tem que passar, as longas chuvas, o frio e peso da neve, as gigantes avalanches que tornam qualquer movimento humano pequeno em comparação ao movimento da natureza. Assim, toda a composição natural do longa faz surgir esse fluxo natural, na qual, os humanos, nem os macacos podem de fato controlar. 
            
O filme é longo, silencioso, com poucos diálogos, mas a força que consegue produzir a partir de todos os seus personagens, da tensão gerada entre os olhares e, principalmente, a ação extremamente bem realizada o tornam fluído e forte. A Guerra aqui surge como um inevitável confronto natural, entre duas espécies na mais simples seleção natural.

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