segunda-feira, 5 de março de 2018

2017 – Terra Selvagem (Taylor Sheridan, EUA) **** (4.0)


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Esta é a estreia de Sheridan como diretor, já tendo escrito o roteiro de bons filmes como Sicario, dirigido por Denis Villenueve, e A Qualquer Custo, dirigido por David Mckenzie. Apesar de não tão intenso quanto esses outros diretores, sua habilidade narrativa continua poderosa, além de se adentrar em temas poderosos de certa cultura norte americana esquecida. Narrando a investigação de uma jovem FBI, aliada de um caçador local, acerca da morte de uma garota numa reserva indígena no Wyoming.
            
Ele parece estar explorando questões contemporâneas dos EUA, em Sicário, a questão do tráfico de drogas, da fronteira com o México; em A Qualquer Custo explora a questão da pobreza no Texas e como os problemas imobiliários, assim como de estrutura econômica afetam a vida dos americanos e neste longa, pincela sobre o esquecimento das Reservas Indígenas. Dessa forma, sempre procura contar suas histórias de suspense com um pano de relevância social. Assim, em Terra Selvagem seu motivo central se encontra na investigação de um possível assassinato, a de uma garota descendente de indígenas. O longa se inicia com a jovem, Natalie, fugindo de algo à noite, numa neve espessa e então morrendo por conta do frio. O grande impasse de todo o enredo se encontra quando Jane, interpretada por Ashley Olsen, descobre que a partir da autopsia da garota não é possível se considerar um assassinato já que a causa da morte foi o congelamento dos alvéolos pulmonares. Portanto, não podendo acionar uma equipe de reforços.
            
Para investigar esse caso com tão pouco e sendo uma novata, algo que é muito bem demonstrado pela a interpretação da atriz, Jane conta com a ajuda do caçador Cory, interpretado com um peso eterno por Jeremy Renner. Ele é quem encontra o corpo e realiza praticamente todos os processos de investigação, pois não só conhece o território como poucos, como conhece todos que vivem na Reserva. Sua dor e sua comoção em relação ao caso se encontra por uma conexão com o caso. Com isto, temos dois personagens muito bem elaborados que acabam de cooperar de forma muito dinâmica.
            
Em sua direção, Sheridan impõe um ritmo investigativo lento, porém nunca insonso. Construindo o suspense de maneira simples, sempre que fosse necessário que o espectador se sentisse acuado pelos acontecimentos, sua direção se orientava pela subjetividade de Jane, já que ela, por ser novata, se encontra numa posição mais identificável sensorialmente com o espectador. Em uma sequência específica, na qual Jane se encontra com alguns dos suspeitos, o diretor alcança um pico de tensão maior pela não realização de um ato, a espera de uma possível ação irruptiva levada aos extremos. Algo que já havia realizado em seu roteiro para Sicário, mas dessa vez, demonstrou uma inspiração grande no Western, na qual a tensão anterior ao ato de puxar a arma dilatava o tempo de forma exacerbada e contagiante. Aliando tudo isso a uma bela fotografia que captura muito bem a sua locação imersa em neve e carregando uma frieza intensa, aliás, a trilha sonora de Nick Cave e Warren Ellis, com seus corais e notas extensas ajudam na transformação da ambientação.
            
Entretanto, acredito que existe uma escolha narrativa que faz perder um pouco a força de seu enredo. Ao encenar exatamente o que aconteceu com a personagem de Natalie, de forma ininterrupta, talvez para que se criasse um ódio mais intenso acerca daquele que o realizou e tornar uma vontade de vingança justa. Aliás, narrativamente se torna uma proposta muito manipuladora, além de muito fácil para um filme que se propõe a uma investigação e a de se fazer suspense, revelar-se por completo. No fim, não é algo que destrói completamente com o enredo, mas de certo o torna menos do que poderia ter sido.
            
Ao fim do filme, a história se conclui de maneira coesa e criando ainda mais relevância à situação das Reservas Indígenas. Numa das sequências mais tristes e belas deste filme, o pai de Natalie desenha uma máscara mortuária, algo comum em sua cultura para elaborar o luto, porém existe uma indignação, pois ele não sabe como desenhá-la da maneira correta, já que todos que sabiam morreram. Seu luto aí se torna maior do que o da sua filha, se torna o luto de toda uma cultura e é por isso que essa sequência ganha um poder grande, que ultrapassa o motivo individual e eleva para um campo gigantesco.
            
Sheridan em sua estreia consegue produzir um filme muito bem interpretado e com ótimos personagens, abordando o tema das Reserva Indígenas de maneira bela e relevante – lembrando que seu motivo principal era o fato investigativo –, por mais que não de forma completamente aprofundada. Além de novamente produzir um suspense e uma investigação que prende o espectador por sua cadência, por mais que se enfraqueça por se revelar demais, mas sempre impressiona pela habilidade em produzir momentos de não ação intensos.       

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