
Após
9 anos sem produzir um longa, pois estava de certa forma ocupada produzindo outros
tipos de materiais como curtas, Lucrecia Martell volta com o seu melhor
trabalho até então. Eis aqui um exemplo potente do herói estético no cinema
contemporâneo, o homem que age e padece ao mesmo tempo, num onirismo tropical
poderoso que ecoa em todos seus aspectos sensoriais. Essa é a história de Diego
Don Zama, um funcionário da coroa espanhola na colônia que está esperando sua
transferência para a capital Buenos Aires.
A experiência de assistir um filme
da diretora sempre é um processo de extrema implicação do espectador, pois a
forma com que usa o quadro é deveras complexa. Produzindo um esquema rígido e
por muito formalista, já que toda a força do seu longa está no que enquadra, na
própria relação intensa entre o que está no enquadramento e o que não está. É
como se o extracampo sempre surgisse de forma fantasmagórica, se tornando
presente no campo como mágica. Por isso é preciso demarcar essa implicação que
seu cinema causa, pois ele nos força a olhar, a investigar a imagem de forma
pouca vista. Não é à toa que prioriza os longos planos estáticos e uma
morosidade de movimentação que impressiona. Com isso, ela usa uma fotografia
deslumbrante, captada pelo grande Rui Poças (já trabalhou com Miguel Gomes,
João Pedro Rodrigues, além da dupla Juliana Rojas e Marco Dutra). A força com
que apreende este ambiente tropical produz um senso psicodélico ao longa, pois
as cores contêm frescor especialmente forte, destoantes. O verde, por exemplo,
preenche grande parte do ambiente em uma diferenciação de tons, além do
vermelho, usado mais para o fim numa contaminação absurda e aterrorizante.
Toda a locação contém um aspecto
perfeito para esse tropicalismo onírico, no qual o suor é sempre o do sonho. Mas
o que não quer dizer que é um filme surrealista, por mais que contenha
elementos que emulam o fantástico em certos momentos. Para construir esse tipo
de atmosfera não basta a imagem conter elementos e texturas, é preciso agenciar
o sonoro de forma que componha um bloco no qual os sentidos se estranhem. E
assim o faz, é impressionante como o toque de certos objetos com outros, como a
xícara que Diego Don Zama compartilha com a aristocrata Luciana, faz ecoar de
forma estridente, confundido o que se é escutado. Não é apenas um ecoar, é um
corte em infinito no som lógico das palavras ditas pelos personagens. Causando
um efeito mais intenso até mesmo com a repetição de frases que surgem como um
disco arranhado, que parecem com um sussurro de um oráculo. Martel consegue
fazer a mistura perfeita do tom tropical com onírico, ainda por conter na sua
trilha sonora as graciosas baladas de Los Índios Tabajaras, o violão agridoce
latino americano.
Bem, ter um afinco técnico tão
impressionante não quer dizer que o seu enredo é jogado de lado, porém é de
certo que essa história não se encadeia de forma plenamente aristotélica. O
enredo de Zama é como uma espera eterna. O protagonista espera da coroa uma
transferência que nunca chega, nesse impasse terrível, ele passeia por diversos
ambientes. Seja o banho das nativas, os encontros com Luciana em que o deixa
encantado com os privilégios da aristocracia, ou ainda as conversas com doente
mercador. Daniel Gimenez Cacho consegue interpretar este personagem em toda a
sua ambiguidade, expressando de certo um comportamento infantil, quase
alucinado, enfeitiçado, para logo depois impor sua pretensa virilidade e um
poder, que se torna cada vez mais inexistente. O enredo percorre a linha do
desnorteio de seu personagem e não o da lógica. Para encontrar a singularidade
de cada encontro, Martel o enquadra por entre janelas e portas, por vezes sendo
deixando seu quadro invadir-se por olhares e principalmente por animais que se
dispõe à câmera, como se posassem. Seja uma Lhama ou um Cavalo, eles parecem
tão perdidos como o protagonista em cena.
Todo esse impasse é exposto num
pequeno trecho do longa que mostra os peixes na água de forma convulsa e uma
poesia é recitada, sobre um peixe que é expulso incessantemente da água e o
mesmo tempo não pode viver na terra, pois lá morrerá. Essa é a sina de Diego
Don Zama, ele é expulso do ambiente que pertence, seja a aristocracia
decadente, seja lá qual for, e pode morrer de angústia por tanto esperar. Ele
conhece diversos personagens que o entrelaçam numa jornada ao nada tão grande
que ele vive, seja um relator da coroa que sonha em ser escritor, ou até mesmo
o governador da pequena vila, na qual se encontra. Tudo isso é como um vagaroso
passear pela interminável espera. O longa só ganha um ritmo dinâmico quando, em
seus momentos finais, Zama entra para um grupo buscando matar Vicuña Porto, um
homem lendário e supostamente um assassino. Esse seu grupo é recheado de atores
latinos como um todo, não só argentinos, pois contém Matheus Natchtergaele,
sempre em seu tom imprevisível. E digo ritmo dinâmico, não para contrapor de
forma valorativa ao lento, mas para demonstrar uma diferença, já que o suspense
já existente se torna um mecanismo narrativo ainda mais intenso nesses
momentos.
Com o fim do filme, suas últimas
sequências são de uma agonia absurda, na qual o personagem entra cada vez mais
na situação de um herói estético, como Édipo, ou Hamlet, aqueles que agem e
padecem completamente. Assim como Rancière propõe, ao mesmo tempo que sabem de
sua sina, não sabem, com isso desregulam o regime do sensível, daquilo que é
possível sentir, e desvirtuam o encadeamento da fábula, construindo então uma
narrativa não centrada no logos, mas no pathos. Eis o que Zama faz com
maestria, desregular seu espectador.
Dessa forma, esse filme é um dos
mais impressionantes do ano de 2017. Poderoso em cada detalhe, pode irritar
alguns por tantas pontas soltas, personagens que vão e vem sem muita
explicação, mas como disse a experiência é tremenda, seus recursos estéticos
são especiais em compor o vaguear sem compreensão de seu personagem. Martel,
assim, produz sua obra mais forte de todas até então, espero que volte a
produzir com mais frequência.
Zama é o típico filme que me faz duvidar se eu amei ou odiei! E por isso acho maravilhoso. Apenas o pensamento de ter que sentar por horas novamente e assistir a essa história, que faz com que cada minuto que passe pareça um mês, me angustia profundamente! Talvez essa seja o motivo de eu ter gostado, acho que esse é o papel do filme, ele não foi feito para ser assistido diversas vezes, mas sim pra lhe causar um impacto da primeira (e provavelmente unica) vez que foi visto.
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