quinta-feira, 15 de março de 2018

2018 – Aniquilação (Alex Garland, EUA) **** (4.0)


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Teria o ser humano uma predisposição biológica para a pulsão de morte? Acredito que não, porém esse é um dos questionamentos, dos diversos, realizados no novo longa de Alex Garland, que novamente coloca o futuro da humanidade em jogo por conta de um novo tipo de ser (No caso de filme anterior, Ex Machina, um I.A). Seu enredo centra-se em Lena, uma bióloga, que acreditava que seu marido, um soldado, estava morto, porém com o retorno dele, ela acaba por adentrar nos mistérios de sua missão.
            
Garland optou por uma narrativa que intercala três diferentes tempos. O passando de Lena, quando seu marido, Kane, estava com ela, normalmente momentos dos dois na cama, onde a intimidade sempre revela o verdadeiro estado emocional dos personagens. No futuro, em que ela é entrevistada por um homem vestindo um traje anti-radioativo. E o presente, no qual sua jornada se inicia quando seu marido é levado pelo exército e ela presencia sua missão. Investigar um estranho evento ocasionado por algo que caiu do espaço numa praia, criando uma espécie de zona cercada por uma áurea cristalina e misteriosa, algo que está crescendo o tempo todo. Além disso, faz uso de capítulos para mostrar o quão adentro do núcleo central sua narrativa se encontra. Porém, os capítulos parecem só separar os atos e não acrescentam tanto, essa montagem que vai e volta tem certa utilidade na construção de Kane e Lena, mas prejudicam um pouco o ritmo.
            
Natalie Portman interpreta Lena com muita consistência, demonstrando todo o processo emocional que a alterou. Compreende-se sua felicidade no passado, sua culpa e luto no presente e por fim, sua ambiguidade e cansaço no futuro. Oscar Isaac também tem essas consistências, seu rosto chega a parecer caído, completamente abatido. Entretanto, as outras personagens, que acompanham Lena em sua jornada pela zona do evento são extremamente esquemáticas. Entre elas a psicóloga e líder do projeto de investigação Dr. Ventress, interpretada pela Jeniffer Jason Leigh com um tom vocal atonal; Anya, uma paramédica interpretada por Gina Rodriguez, com uma robustez e medo; Sheperd, uma geologista, interpretada por Tuva Novotny, que se comunica com mais facilidade; por fim, Josie, uma pós-doutora em física, interpretada por Tessa Thompson, sempre reservada, mas perspicaz. Deve-se salientar o que une todas ela, além da vontade de compreender o que é essa zona, é por certa dor existencial por qual passam, uma já perdeu a filha, outra se corta, cada uma delas passa por um processo forte de suas vidas.
            
Visualmente Garland explora muito bem as nuances da imagem, assim como a estranheza necessária para fazer valer o mistério sobre o local. O plasma que cerca esse ambiente é de um transparente em que seu movimento expõe diversas cores. Assim, todo momento que a luz incide entre as folhas das árvores brilha em multicor. O vaguear lento das personagens, com alguns diálogos funcionais cria uma sensação de que elas estão perdidas. A florestas é muito colorida, flores e mais flores emaranhadas como numa mutação. Para além disso, os animais também se tornaram mutantes, as espécies se misturaram. Por sinal, um dos grandes momentos de conflito narrativo é quando se percebe o efeito de estar nessa área. Um deles é surgimento de um urso mutante que emite uma sonoridade muito conhecida das personagens, um lamento tristonho que clama por ajuda. O outro e talvez mais impactante são os vídeos dos soldados da última expedição, que filmam um dos seus companheiros sendo tomado pelo movimento de mutação e mistura dentro de seu próprio corpo.
            
Todas essas sequências contêm efeitos práticos mesclados com efeitos digitais, o que ajuda a compor com relevo esses aspectos do longa. Aliás, existe um verdadeiro cuidado na escolha da textura, da cor, do movimento de tudo que se encontra dentro da zona, pois eles refletem o que de fato está acontecendo ali. Para construir essa atmosfera ainda é usada uma trilha sonora desconcertante, de sintetizadores, por vezes almejando algo mais humano com uma música folk, mas que surge como tema e que acabar por repetir-se em diversos momentos sem muita justificativa.
            
Porém, nada no longa nos prepara para seus minutos finais. Criando uma sensação tão agoniante sobre o encontro com o incompreensível que pode ser comparável aos feitos de Lovecraft em produzir sensações de criaturas indescritíveis. A trilha sonora se torna obsedante, o visual se torna luminoso, até mesmo psicodélico e tudo que decorre desses momentos finais é de pura maestria. Em determinando momento, o encadeamento de ações se tornam poéticos e, ao mesmo tempo, perturbadores, além de propositalmente deixar o espectador suspenso no ar.
            
Mas o que é essa zona? Da para perceber uma influência de Tarkovsky aqui, seja Solaris ou Stalker. Se o planeta Solaris refletia mais do que condição humana encarnando-a, e a Zona de Stalker não apenas realizava desejos, a área de Aniquilação é muito mais que destrutiva, é transformadora. Garland parece almejar uma explicação para os atos auto-destrutivos humanos (existem diversos, seja um simples fato de beber sabendo de seus males, ou até mesmo a auto-mutilação) na própria natureza, em seu funcionamento. Assim, as células cancerígenas se multiplicam, criam e se misturam, muito mais do que destroem. Aquilo que caiu do espaço se alojou na Terra e então se acoplou ao DNA de tudo e o modificou, servindo como objeto de Refração genética. O que significa dizer isso? No filme, esse assunto tornar-se explícito, isto quer dizer que aquilo que caiu do espaço não está destruindo as coisas, está as embaralhando. Porém, isso é um ciclo natural da vida, já dizia Lavoisier “Na Natureza, nada se cria, nada se perde. Tudo se transforma”. A pulsão de morte freudiana, pela psicanálise, é o que leva o sujeito a tender a se auto-destruir, mas o que o filme denota é desejo de transformar-se.
            
Pensando dessa forma é possível compreender a área da zona como o prisma que reflete as cores diversas. Além dos pequenos índices visuais durantes o longa que o diretor já havia demonstrado, como o toque entre as mãos de Lena e Kane, que a refração da luz com a água e em conseguinte mistura os dedos dos dois.  O ser que chegou no Planeta é como o monólito de 2001, filme de Kubrick, é um objeto que não distingue mente de corpo, que não age por uma consciência superior ou transcendente, apenas segue seu fluxo natural de transformação, de devir. Se a raça humana como entende-se há de terminar é apenas um fator meramente natural. 
            
Garland talvez não tenha construído com extrema eficácia seus personagens e isso dificulte certa relação emocional com eles, mas a força que visualmente e sensorialmente o filme consegue explorar é exuberante. Produzindo uma obra de ficção-cientifica que faz pensar, que desafia e que coloca o espectador perante a estranhamentos do incompreensível.


Um comentário:

  1. Ahh o que falar dessa incógnita que é esse filme, mais um que eu me questiono se gostei ou não, mas no final a resposta sempre pesa mais pro sim... A pesar de todos os seus defeitos, acredito que a proposta foi incrível! A mistura de ficção científica com sociologia e questões cotidianas faz com que a mistura desse filme crie uma imagem de um "rizoma" na cabeça do espectador, como se, mesmo sendo áreas diferentes, elas estão interligadas e talvez venham até de uma mesma fonte.

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