sábado, 3 de março de 2018

2017 – 1922 (Zak Hilditch, EUA) ***1/2 (3.5)


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Como já havia dito outra vez, esse ano foi ótimo para as adaptações de Stephen King no cinema. 1922 é um conto da coletânea “Escuridão Total, Sem Estrelas”, que narra a história de um homem e sua memória, sobre um ato terrível que cometeu e acabou destruindo a sua família.
            
Utilizando de uma fotografia saturada, que faz parecer o interior do Sul americano como o local mais quente do mundo, em que os personagens se encontram imersos num gigante mar de milhos, completamente cansados. Wildred James, interpretado magistralmente por Thomas Jane, com um sotaque carregado, é um fazendeiro que é odiado por sua esposa Arlette. Esta, por sua vez, tem a real posse da fazenda, assim como o dinheiro da família, Molly Parker a interpreta com um tom ácido. A todo momento é possível escutá-la fazendo deboches terríveis sobre o poder que tem sobre seu marido por conta dessa herança. Além disso, eles têm a ajuda de seu filho Henry, jovem que é extremamente influenciável e se vê meio perdido em grande parte do tempo por conta da relação intensa de seus pais. Existe uma narração, que vem de Wilfred após muitos anos, como se estivesse contando a história para nós espectadores.  Essa proposta narrativa ajuda a construir uma figura cada vez mais estranha do seu protagonista, o que no caso deste filme acaba por ser ótimo.
            
O grande fato terrível que produz todo o desenrolar da história é ter planejado, com seu filho, a morte de sua mulher. A sequência deste ato é agoniante, já que é quase ininterrupta, sem contar o peso que os dois sentem com a ação que praticam. A partir daí, então, toda a relação muda, pois com tanto sangue nas mãos dos dois é difícil continuar unido. Assim, a culpa dos dois começa a transparecer não verbalmente, mas simbolicamente. Como muitos já sabem, King tem certo apreço ao uso do terror como certos mecanismos psicológicos, dessa forma, quando nos breves momentos o protagonista começa a presenciar sua esposa na casa novamente é como a espécie de um retorno do recalcado. Mas é interessante como o diretor o faz de forma gradual, iniciando pela presença dos ratos, apenas seus sons, até a presença física deles, para finalmente sua mulher aparecer. Mas por que os ratos? Bem, os ratos são na verdade como uma espécie de mecanismo de defesa dele, pois eles servem como o seu próprio esquecimento, eles comem o corpo de Arlette quando eles o jogam no poço. Essa metáfora quer demonstrar que Wilfred gostaria de se esquecer, a princípio conseguia, mas então a persistência do fato em sua mente a fez retornar.
            
Assim, é notório como o fantasma neste filme é usado muito mais como metáfora do que seu poder literal, já que sua presença, apesar de horripilante, é muito pequena durante todo o enredo. Com isto, o que o enredo se propõe é a decadência psicológica de um homem consumido pela culpa de ter feito o que sempre desejou fazer. Infelizmente, o terceiro ato do longa perde sua força, já que o enredo envolvendo seu filho e sua namorada não contém a mesma potência, ou até mesmo função mais intricada seja de afetação ou significação.  
            
Portanto, essa adaptação do conto de King é muito bem realizada, com um personagem muito interessante que é explorado a fundo. Apesar de se perder um pouco nos seus personagens secundários, consegue ainda construir uma intensa atmosfera do interior sulista norte-americana com toques sutis de terror psicológico.

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