
O
novo filme de um dos diretores do primeiro John Wick, é mais uma grande
elaboração sobre o cinema de ação. Talvez as melhores sequências ação do ano se
encontrem neste filme, que preza por uma coerência visual no que tange as
lutas, porém se torna mirabolante e narrativamente desgastado em certo momento
em sua história. Narrando a missão de Lorraine, uma espiã britânica que vai à
Alemanha Oriental descobrir quem matou um companheiro seu e reencontrar a lista
com o nome dos agentes duplos infiltrados.
A narrativa é realizada a partir do relato da própria
Lorraine para seus superiores. Assim, se intercala sequências de interrogatório
na Inglaterra e os momentos em que de fato a ação acontece. Porém, o efeito desse
tipo narrativo parece atrapalhar um pouco o ritmo do filme. Indo de um tempo a
outro, sempre de forma rápida, como se soubesse que o interrogatório seria
desinteressante. Na Alemanha Oriental, a fotografia fria e o cinzento da época,
consegue ambientar facilmente o local, além do vermelho que se apresenta no
fundo. Sempre optando por um uso sábio também das luzes neon, já que nos anos
80 foi quando a música eletrônica estava em sua potência de novidade maior,
assim, as boates lotadas e os bares sempre incidiam com essas luzes que soam
como futuristas. Para conseguir criar esse contexto o que mais se escuta em sua
trilha sonora é uma alternância entre Krautrock, New Wave e Post-Punk,
sonoridades essenciais da época, influenciadas diretamente por esse movimento
eletrônico da Alemanha. Assim, ouve-se New Order, Bowie até Siouxsie and the
Banshees.
Com a presença enorme de Charlize Theron como Lorraine, o
longa se torna forte. A atuação dela não só demonstra certo cansaço de sua
personagem, mas toda uma inteligência no olhar, nos movimentos. Além de
conseguir mais facilmente realizar as sequências de ação. Dois personagens a
acompanham mais de perto. Percival, interpretado cheio de trejeitos por James
Mcavoy, que é um agente há tempos no país, porém parece que se misturou demais
com pequenos negócios e se perdeu em diversos problemas; e a espiã francesa,
Lassalle, interpretada por Sofia Boutella, sempre na cola de Lorraine, sendo
ambígua e produzindo uma tensão sexual entre as atrizes. A realização das
sequências de ação por Charlize Theron é de uma força pouco vista no cinema
atual, muito compara à John Wick, afinal, compartilham de diretor, mas aqui é
possível ver muito mais de Operação Invasão, filme indonésio dirigido por Gareth
Evans. Com longos planos-sequências e movimentos de câmera precisos que ajudam
com a intensidade de toda a encenação da luta. Existe uma cena, por exemplo, em
uma passeata, que a protagonista está ajudando um homem e por conta de uma
falha inesperada na sua missão, ela entra num prédio e tem que se enfrentar
alguns inimigos. O plano-sequência perdura por muito tempo, talvez até alcançando
a marca de dez minutos. Mas veja bem, não é utilizar da técnica só por ser
visualmente mais bela, mas sim por conta de uma eficiência realista da ação,
que a torna mais crua, tensa e compreensível.
Com felicidade é possível dizer que Leitch não se perde no
Male-Gaze, não usando dessa terrível tendência do cinema de ação com
protagonistas femininas. Assim, a personagem não é hiperssexualizada pelos
planos que buscam suas curvas, buscam de fato sua força. Deve-se ressaltar como
o diretor teve um papel grandioso ao encenar os grandes momentos do filme, pois
o roteiro, às vezes cansativo, por conta do interrogatório, ou sem ritmo pela
alternância de tempos, conseguiu sempre energizar a narrativa. Existe, também,
uma citação bem específica à Stalker, filme de Tarkovksy, numa sequência de
ação dentro de um cinema. Essa citação, se pudermos de fato chamá-la assim,
cria o tom da luta, pois a fotografia esverdeada do filme russo, contamina todo
o espaço, além de sua sonoridade fazer parte do ato. Parece até mesmo um caso
de sampling antes de uma citação
pura, pois fez uso do efeito estético de outro filme, de forma que o tornou
participante em sua estética. Sampling,
muito conhecido no Hip-Hop, é uma forma de armazenar músicas e reutilizá-la em uma
criação nova, inovação tecnológica aperfeiçoada nos anos 80
O final do longa recorre a certa tentativa de impressionar
o espectador, porém com tanta informação que acaba sendo jogada e então
subvertida, o que era para ser revelador se torna apenas insonso. Acredito que
Atômica será um filme a ser lembrando, pois o que faz pelo cinema de ação é
maravilhoso, visualmente impressionante, porém sua tentativa de ser mais
complexo do que é, de impressionar com algumas surpresas, acabou por deixá-lo
às vezes maçante, às vezes pouco contagiante.
Esse segundo filme do diretor demonstra que ele é um dos
grandes nomes do momento para o gênero de ação e tem tudo para conseguir ainda
melhorar. Caracterizando uma personagem como icônica, com a presença
irresistível de Charlize Theron.
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