sábado, 31 de março de 2018

2017 – Atômica (David Leitch, EUA) ***1/2 (3.5)


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O novo filme de um dos diretores do primeiro John Wick, é mais uma grande elaboração sobre o cinema de ação. Talvez as melhores sequências ação do ano se encontrem neste filme, que preza por uma coerência visual no que tange as lutas, porém se torna mirabolante e narrativamente desgastado em certo momento em sua história. Narrando a missão de Lorraine, uma espiã britânica que vai à Alemanha Oriental descobrir quem matou um companheiro seu e reencontrar a lista com o nome dos agentes duplos infiltrados.

A narrativa é realizada a partir do relato da própria Lorraine para seus superiores. Assim, se intercala sequências de interrogatório na Inglaterra e os momentos em que de fato a ação acontece. Porém, o efeito desse tipo narrativo parece atrapalhar um pouco o ritmo do filme. Indo de um tempo a outro, sempre de forma rápida, como se soubesse que o interrogatório seria desinteressante. Na Alemanha Oriental, a fotografia fria e o cinzento da época, consegue ambientar facilmente o local, além do vermelho que se apresenta no fundo. Sempre optando por um uso sábio também das luzes neon, já que nos anos 80 foi quando a música eletrônica estava em sua potência de novidade maior, assim, as boates lotadas e os bares sempre incidiam com essas luzes que soam como futuristas. Para conseguir criar esse contexto o que mais se escuta em sua trilha sonora é uma alternância entre Krautrock, New Wave e Post-Punk, sonoridades essenciais da época, influenciadas diretamente por esse movimento eletrônico da Alemanha. Assim, ouve-se New Order, Bowie até Siouxsie and the Banshees.

Com a presença enorme de Charlize Theron como Lorraine, o longa se torna forte. A atuação dela não só demonstra certo cansaço de sua personagem, mas toda uma inteligência no olhar, nos movimentos. Além de conseguir mais facilmente realizar as sequências de ação. Dois personagens a acompanham mais de perto. Percival, interpretado cheio de trejeitos por James Mcavoy, que é um agente há tempos no país, porém parece que se misturou demais com pequenos negócios e se perdeu em diversos problemas; e a espiã francesa, Lassalle, interpretada por Sofia Boutella, sempre na cola de Lorraine, sendo ambígua e produzindo uma tensão sexual entre as atrizes. A realização das sequências de ação por Charlize Theron é de uma força pouco vista no cinema atual, muito compara à John Wick, afinal, compartilham de diretor, mas aqui é possível ver muito mais de Operação Invasão, filme indonésio dirigido por Gareth Evans. Com longos planos-sequências e movimentos de câmera precisos que ajudam com a intensidade de toda a encenação da luta. Existe uma cena, por exemplo, em uma passeata, que a protagonista está ajudando um homem e por conta de uma falha inesperada na sua missão, ela entra num prédio e tem que se enfrentar alguns inimigos. O plano-sequência perdura por muito tempo, talvez até alcançando a marca de dez minutos. Mas veja bem, não é utilizar da técnica só por ser visualmente mais bela, mas sim por conta de uma eficiência realista da ação, que a torna mais crua, tensa e compreensível.

Com felicidade é possível dizer que Leitch não se perde no Male-Gaze, não usando dessa terrível tendência do cinema de ação com protagonistas femininas. Assim, a personagem não é hiperssexualizada pelos planos que buscam suas curvas, buscam de fato sua força. Deve-se ressaltar como o diretor teve um papel grandioso ao encenar os grandes momentos do filme, pois o roteiro, às vezes cansativo, por conta do interrogatório, ou sem ritmo pela alternância de tempos, conseguiu sempre energizar a narrativa. Existe, também, uma citação bem específica à Stalker, filme de Tarkovksy, numa sequência de ação dentro de um cinema. Essa citação, se pudermos de fato chamá-la assim, cria o tom da luta, pois a fotografia esverdeada do filme russo, contamina todo o espaço, além de sua sonoridade fazer parte do ato. Parece até mesmo um caso de sampling antes de uma citação pura, pois fez uso do efeito estético de outro filme, de forma que o tornou participante em sua estética. Sampling, muito conhecido no Hip-Hop, é uma forma de armazenar músicas e reutilizá-la em uma criação nova, inovação tecnológica aperfeiçoada nos anos 80

O final do longa recorre a certa tentativa de impressionar o espectador, porém com tanta informação que acaba sendo jogada e então subvertida, o que era para ser revelador se torna apenas insonso. Acredito que Atômica será um filme a ser lembrando, pois o que faz pelo cinema de ação é maravilhoso, visualmente impressionante, porém sua tentativa de ser mais complexo do que é, de impressionar com algumas surpresas, acabou por deixá-lo às vezes maçante, às vezes pouco contagiante.

Esse segundo filme do diretor demonstra que ele é um dos grandes nomes do momento para o gênero de ação e tem tudo para conseguir ainda melhorar. Caracterizando uma personagem como icônica, com a presença irresistível de Charlize Theron.

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