
Ozon
é um diretor que gosta de experimentar com diferentes gêneros e usando diversos
meios para narrar sua história. No seu mais novo longa parece que faz uma orgia
com Almodóvar, Cronenberg e de Palma, cria uma aberração interessantíssima, talvez
um pouco mirabolante. Narrando um conturbado momento na vida de Chloé, uma
jovem mulher que sente dores insuportáveis no ventre, então, passa a se
envolver com o psicólogo, mais especificamente psicanalista, Paul.
O primeiro ato desse filme é uma
verdadeira obra-prima de como construir um suspense e usar de recursos
imagéticos fortes, manchando os limites do visível. Primeiro, observa-se por um
círculo (como era uso no cinema mudo para produzir o efeito do zoom) o rosto de
Chloé, com seus cabelos molhados sobre o rosto, assim quando a técnica clássica
se desfaz e o enquadramento se expande para todo o aspecto de razão, é possível
ver a personagem tendo os cabelos cortados, num fundo cinza, por mãos
quaisquer. Existe diversas fusões de imagens que já causam certa agonia acerca
da personagem, já que a mesma demonstra um incômodo por tal ato. Logo em
seguida, uma das sequências mais interessantes e ousadas dos últimos anos, na
qual de forma que a fusão de imagem expressa de forma poderosa a dor e até
mesmo um desconforto, de um exame ginecológico.
Mas isso são apenas três minutos de
filme. O desenrolar dessa história faz com que a protagonista comece a ver
Paul. Por diversas elipses, Ozon, os aproxima, avança no tempo, demonstrando
apenas o necessário ou ainda apenas o kitsch de um suspense erótico. O mundo da
personagem se torna sua análise, seus desejos tanto afetivos quanto sexuais
todos se devotam a esse único momento no qual pode ser de certa forma cuidada,
de outra forma engolida. São elipses espaçadas que avançam no tempo até o
momento que os dois realmente entram numa relação que vai para além da ética do
psicólogo e da transferência analítica.
Como eu já havia dito, o diretor
utiliza de diversos recursos visuais interessantes para demonstrar a construção
da relação dos dois. Principalmente, a transformação de Chloé, seja sua
fragmentação em espelhos, ou ainda a sobreposição das obras de arte com o seu
próprio rosto ameno. É interessante que a personagem é nomeada histérica, mas
aqui deve-se pensar na estruturação psíquica que a psicanálise define e não
numa espécie de doença. É um modo de se apresentar ao mundo, um modo de
subjetivação. Talvez a dor no ventre seja literal demais para exprimir tal
modo, porém, é da própria lógica do pastiche que Ozon parece brincar aqui.
Apesar de uma força visual poderosa, o diretor aparenta muito mais estar
interessado nas lógicas complexas e intricadas do suspense erótico.
O enredo vai ser tornando cada vez
mais complexo. Seja pelo novo psicólogo ser um possível irmão gêmeo de seu
namorado, ou pela repetição em duplas de gatos e espelhos, que parecem ter a
intenção de replicar imagens até torná-las agoniantes. Procurando demonstrar a
confusão mental da personagem, que com certeza está para além de uma
denominação neurótica, talvez não seja possível, também, defini-la com psicoses
ou esquizofrenias, mas a fragmentação dos espelhos e os rumos da história, que
beiram o ridículo fazem essa possível associação. Mas não digo ridículo num
sentido ruim aqui, mas sim ao próprio Kitsch almejado. Veja só, parece uma coxa
de retalhos de estéticas já conhecidas. Seja certa cafonice e sofrimento sexual
de Almodóvar, a tensão erótica de De Palma e de forma completamente
interessante o terror do corpo e a relação de gêmeos explorada já em
Cronenberg.
O filme consegue produzir efeitos
tanto como suspense erótico, quanto como suspense psicológico. Tornando os dois
uma coisa só. Mas o que mais interessa é a esperteza de Ozon para conseguir
contar um enredo tão mirabolante e cheio de detalhes piegas, sem cair numa
noção trash propriamente dita. Sem querer falar mal do trash, mas existe uma
elegância que move a câmera, impõe seu ritmo com zooms, com a montagem e
principalmente uma delicadeza em suas atuações. Que não são espalhafatosas, mas
até mesmo são sutis o suficiente para não os tornar personagens puramente
caricatos. Marina Vatch e Jérémie Renier contém uma química estranha, como tudo
nesse filme.
De qualquer forma, O Amante Duplo é
na verdade um Kitsch, pois carrega consigo certo ridículo com a forma de um
suspense completamente intenso. Certo piegas, certo melodrama, certa
elucubração que ousa se tornar complexo, apenas para se tornar mais indigesto e
confuso. É bonito ver até um diretor brincar assim dessa forma, lembra um pouco
o Truffaut fez, em sua vontade de suspense, com a estranheza de A Noiva Estava
de Preto.
Portanto, é possível dizer que esse
filme é um emaranhado divertido, misterioso e por vezes ridículo, de uma
verdadeira experimentação de gêneros e estilos que Ozon faz. Muitos podem até
dizer que ele supostamente não é um “autor”, por não ter um toque próprio e
parecer estar sempre buscando essa experimentação do que já existe, mas vejo de
certa forma que ele cria seu próprio estilo em cima de suas referências, sem
demasiadas sutilezas, mas com uma elegância quase que extravagante.
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