segunda-feira, 2 de abril de 2018

2017 – O Amante Duplo (François Ozon, França) **** (4.0)


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Ozon é um diretor que gosta de experimentar com diferentes gêneros e usando diversos meios para narrar sua história. No seu mais novo longa parece que faz uma orgia com Almodóvar, Cronenberg e de Palma, cria uma aberração interessantíssima, talvez um pouco mirabolante. Narrando um conturbado momento na vida de Chloé, uma jovem mulher que sente dores insuportáveis no ventre, então, passa a se envolver com o psicólogo, mais especificamente psicanalista, Paul.
            
O primeiro ato desse filme é uma verdadeira obra-prima de como construir um suspense e usar de recursos imagéticos fortes, manchando os limites do visível. Primeiro, observa-se por um círculo (como era uso no cinema mudo para produzir o efeito do zoom) o rosto de Chloé, com seus cabelos molhados sobre o rosto, assim quando a técnica clássica se desfaz e o enquadramento se expande para todo o aspecto de razão, é possível ver a personagem tendo os cabelos cortados, num fundo cinza, por mãos quaisquer. Existe diversas fusões de imagens que já causam certa agonia acerca da personagem, já que a mesma demonstra um incômodo por tal ato. Logo em seguida, uma das sequências mais interessantes e ousadas dos últimos anos, na qual de forma que a fusão de imagem expressa de forma poderosa a dor e até mesmo um desconforto, de um exame ginecológico.
            
Mas isso são apenas três minutos de filme. O desenrolar dessa história faz com que a protagonista comece a ver Paul. Por diversas elipses, Ozon, os aproxima, avança no tempo, demonstrando apenas o necessário ou ainda apenas o kitsch de um suspense erótico. O mundo da personagem se torna sua análise, seus desejos tanto afetivos quanto sexuais todos se devotam a esse único momento no qual pode ser de certa forma cuidada, de outra forma engolida. São elipses espaçadas que avançam no tempo até o momento que os dois realmente entram numa relação que vai para além da ética do psicólogo e da transferência analítica.
            
Como eu já havia dito, o diretor utiliza de diversos recursos visuais interessantes para demonstrar a construção da relação dos dois. Principalmente, a transformação de Chloé, seja sua fragmentação em espelhos, ou ainda a sobreposição das obras de arte com o seu próprio rosto ameno. É interessante que a personagem é nomeada histérica, mas aqui deve-se pensar na estruturação psíquica que a psicanálise define e não numa espécie de doença. É um modo de se apresentar ao mundo, um modo de subjetivação. Talvez a dor no ventre seja literal demais para exprimir tal modo, porém, é da própria lógica do pastiche que Ozon parece brincar aqui. Apesar de uma força visual poderosa, o diretor aparenta muito mais estar interessado nas lógicas complexas e intricadas do suspense erótico.
            
O enredo vai ser tornando cada vez mais complexo. Seja pelo novo psicólogo ser um possível irmão gêmeo de seu namorado, ou pela repetição em duplas de gatos e espelhos, que parecem ter a intenção de replicar imagens até torná-las agoniantes. Procurando demonstrar a confusão mental da personagem, que com certeza está para além de uma denominação neurótica, talvez não seja possível, também, defini-la com psicoses ou esquizofrenias, mas a fragmentação dos espelhos e os rumos da história, que beiram o ridículo fazem essa possível associação. Mas não digo ridículo num sentido ruim aqui, mas sim ao próprio Kitsch almejado. Veja só, parece uma coxa de retalhos de estéticas já conhecidas. Seja certa cafonice e sofrimento sexual de Almodóvar, a tensão erótica de De Palma e de forma completamente interessante o terror do corpo e a relação de gêmeos explorada já em Cronenberg.
            
O filme consegue produzir efeitos tanto como suspense erótico, quanto como suspense psicológico. Tornando os dois uma coisa só. Mas o que mais interessa é a esperteza de Ozon para conseguir contar um enredo tão mirabolante e cheio de detalhes piegas, sem cair numa noção trash propriamente dita. Sem querer falar mal do trash, mas existe uma elegância que move a câmera, impõe seu ritmo com zooms, com a montagem e principalmente uma delicadeza em suas atuações. Que não são espalhafatosas, mas até mesmo são sutis o suficiente para não os tornar personagens puramente caricatos. Marina Vatch e Jérémie Renier contém uma química estranha, como tudo nesse filme.
            
De qualquer forma, O Amante Duplo é na verdade um Kitsch, pois carrega consigo certo ridículo com a forma de um suspense completamente intenso. Certo piegas, certo melodrama, certa elucubração que ousa se tornar complexo, apenas para se tornar mais indigesto e confuso. É bonito ver até um diretor brincar assim dessa forma, lembra um pouco o Truffaut fez, em sua vontade de suspense, com a estranheza de A Noiva Estava de Preto.  
            
Portanto, é possível dizer que esse filme é um emaranhado divertido, misterioso e por vezes ridículo, de uma verdadeira experimentação de gêneros e estilos que Ozon faz. Muitos podem até dizer que ele supostamente não é um “autor”, por não ter um toque próprio e parecer estar sempre buscando essa experimentação do que já existe, mas vejo de certa forma que ele cria seu próprio estilo em cima de suas referências, sem demasiadas sutilezas, mas com uma elegância quase que extravagante.

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