
Teria o ser humano uma
predisposição biológica para a pulsão de morte? Acredito que não, porém esse é
um dos questionamentos, dos diversos, realizados no novo longa de Alex Garland,
que novamente coloca o futuro da humanidade em jogo por conta de um novo tipo
de ser (No caso de filme anterior, Ex Machina, um I.A). Seu enredo centra-se em
Lena, uma bióloga, que acreditava que seu marido, um soldado, estava morto,
porém com o retorno dele, ela acaba por adentrar nos mistérios de sua missão.
Garland
optou por uma narrativa que intercala três diferentes tempos. O passando de
Lena, quando seu marido, Kane, estava com ela, normalmente momentos dos dois na
cama, onde a intimidade sempre revela o verdadeiro estado emocional dos
personagens. No futuro, em que ela é entrevistada por um homem vestindo um
traje anti-radioativo. E o presente, no qual sua jornada se inicia quando seu
marido é levado pelo exército e ela presencia sua missão. Investigar um
estranho evento ocasionado por algo que caiu do espaço numa praia, criando uma
espécie de zona cercada por uma áurea cristalina e misteriosa, algo que está
crescendo o tempo todo. Além disso, faz uso de capítulos para mostrar o quão
adentro do núcleo central sua narrativa se encontra. Porém, os capítulos
parecem só separar os atos e não acrescentam tanto, essa montagem que vai e
volta tem certa utilidade na construção de Kane e Lena, mas prejudicam um pouco
o ritmo.
Natalie
Portman interpreta Lena com muita consistência, demonstrando todo o processo
emocional que a alterou. Compreende-se sua felicidade no passado, sua culpa e
luto no presente e por fim, sua ambiguidade e cansaço no futuro. Oscar Isaac
também tem essas consistências, seu rosto chega a parecer caído, completamente
abatido. Entretanto, as outras personagens, que acompanham Lena em sua jornada
pela zona do evento são extremamente esquemáticas. Entre elas a psicóloga e
líder do projeto de investigação Dr. Ventress, interpretada pela Jeniffer Jason
Leigh com um tom vocal atonal; Anya, uma paramédica interpretada por Gina
Rodriguez, com uma robustez e medo; Sheperd, uma geologista, interpretada
por Tuva Novotny, que se comunica com mais facilidade; por fim, Josie, uma
pós-doutora em física, interpretada por Tessa Thompson, sempre reservada, mas
perspicaz. Deve-se salientar o que une todas ela, além da vontade de
compreender o que é essa zona, é por certa dor existencial por qual passam, uma
já perdeu a filha, outra se corta, cada uma delas passa por um processo forte
de suas vidas.
Visualmente
Garland explora muito bem as nuances da imagem, assim como a estranheza
necessária para fazer valer o mistério sobre o local. O plasma que cerca esse
ambiente é de um transparente em que seu movimento expõe diversas cores. Assim,
todo momento que a luz incide entre as folhas das árvores brilha em multicor. O
vaguear lento das personagens, com alguns diálogos funcionais cria uma sensação
de que elas estão perdidas. A florestas é muito colorida, flores e mais flores
emaranhadas como numa mutação. Para além disso, os animais também se tornaram
mutantes, as espécies se misturaram. Por sinal, um dos grandes momentos de
conflito narrativo é quando se percebe o efeito de estar nessa área. Um deles é
surgimento de um urso mutante que emite uma sonoridade muito conhecida das
personagens, um lamento tristonho que clama por ajuda. O outro e talvez mais
impactante são os vídeos dos soldados da última expedição, que filmam um dos
seus companheiros sendo tomado pelo movimento de mutação e mistura dentro de
seu próprio corpo.
Todas
essas sequências contêm efeitos práticos mesclados com efeitos digitais, o que
ajuda a compor com relevo esses aspectos do longa. Aliás, existe um verdadeiro
cuidado na escolha da textura, da cor, do movimento de tudo que se encontra
dentro da zona, pois eles refletem o que de fato está acontecendo ali. Para
construir essa atmosfera ainda é usada uma trilha sonora desconcertante, de
sintetizadores, por vezes almejando algo mais humano com uma música folk, mas
que surge como tema e que acabar por repetir-se em diversos momentos sem muita
justificativa.
Porém,
nada no longa nos prepara para seus minutos finais. Criando uma sensação tão
agoniante sobre o encontro com o incompreensível que pode ser comparável aos
feitos de Lovecraft em produzir sensações de criaturas indescritíveis. A trilha
sonora se torna obsedante, o visual se torna luminoso, até mesmo psicodélico e
tudo que decorre desses momentos finais é de pura maestria. Em determinando
momento, o encadeamento de ações se tornam poéticos e, ao mesmo tempo, perturbadores,
além de propositalmente deixar o espectador suspenso no ar.
Mas
o que é essa zona? Da para perceber uma influência de Tarkovsky aqui, seja
Solaris ou Stalker. Se o planeta Solaris refletia mais do que condição humana
encarnando-a, e a Zona de Stalker não apenas realizava desejos, a área de
Aniquilação é muito mais que destrutiva, é transformadora. Garland parece
almejar uma explicação para os atos auto-destrutivos humanos (existem diversos,
seja um simples fato de beber sabendo de seus males, ou até mesmo a
auto-mutilação) na própria natureza, em seu funcionamento. Assim, as células
cancerígenas se multiplicam, criam e se misturam, muito mais do que destroem.
Aquilo que caiu do espaço se alojou na Terra e então se acoplou ao DNA de tudo
e o modificou, servindo como objeto de Refração genética. O que significa dizer
isso? No filme, esse assunto tornar-se explícito, isto quer dizer que aquilo
que caiu do espaço não está destruindo as coisas, está as embaralhando. Porém,
isso é um ciclo natural da vida, já dizia Lavoisier “Na Natureza, nada se cria,
nada se perde. Tudo se transforma”. A pulsão de morte freudiana, pela
psicanálise, é o que leva o sujeito a tender a se auto-destruir, mas o que o
filme denota é desejo de transformar-se.
Pensando
dessa forma é possível compreender a área da zona como o prisma que reflete as
cores diversas. Além dos pequenos índices visuais durantes o longa que o
diretor já havia demonstrado, como o toque entre as mãos de Lena e Kane, que a
refração da luz com a água e em conseguinte mistura os dedos dos dois. O ser que chegou no Planeta é como o monólito
de 2001, filme de Kubrick, é um objeto que não distingue mente de corpo, que
não age por uma consciência superior ou transcendente, apenas segue seu fluxo
natural de transformação, de devir. Se a raça humana como entende-se há de
terminar é apenas um fator meramente natural.
Garland
talvez não tenha construído com extrema eficácia seus personagens e isso
dificulte certa relação emocional com eles, mas a força que visualmente e
sensorialmente o filme consegue explorar é exuberante. Produzindo uma obra de
ficção-cientifica que faz pensar, que desafia e que coloca o espectador perante
a estranhamentos do incompreensível.
Ahh o que falar dessa incógnita que é esse filme, mais um que eu me questiono se gostei ou não, mas no final a resposta sempre pesa mais pro sim... A pesar de todos os seus defeitos, acredito que a proposta foi incrível! A mistura de ficção científica com sociologia e questões cotidianas faz com que a mistura desse filme crie uma imagem de um "rizoma" na cabeça do espectador, como se, mesmo sendo áreas diferentes, elas estão interligadas e talvez venham até de uma mesma fonte.
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