
Este segundo filme no projeto autobiográfico, e levemente
narcísico de Alejandro Jodorowsky, é recheado de momentos icônicos e pode se
dizer até históricos para o surrealismo, principalmente para o concerne deste
movimento artístico no Chile. É um filme absurdo, mas consciente de si, por
isso é extremamente envolvente. Narrando o momento que o jovem Jodorowsky instigado,
muda-se para Santiago com os pais, e passa a conhecer os segredos e poesias de
uma grande cidade, assim como se constitui como um artista, mas ainda perdido.
Não há como negar que em muitos casos o surrealismo é
utilizado para salientar detalhes que reunidos de certa forma causam um
agenciamento onírico, dessa forma, a história se expressa em peculiaridades que
se ressaltam. De início, Alejandro conhece a homossexualidade, revolta-se
contra família, percebe como todos estão doentes quando não se contagiam pela
eletricidade da vida. Eletricidade esta iniciada com seu encanto pela poesia em
meio a toda estranheza e exclusão. A escolha mais certeira do diretor foi
avançar no tempo para quando estava para se tornar um adulto, em que começa a
sua experimentação como artista. É divertido ver a forma idealista, ingênua e
fantástica com qual Alejandro e seus companheiros conseguiam construir a
concepção de arte. A todo momento também se percebe certo egoísmo e complexo de
grandeza no seu protagonista, é aí que incide um dos pontos mais cruciais e
impressionantes dessa sua proposta autobiográfica, a potência terapêutica que
existe nessa análise de si mesmo.
As
suas pontuações já haviam sido maravilhosas no primeiro filme “A Dança da
Realidade”, porém aqui se tornam tão incisivas e profundas que fazem tocar o
verdadeiro homem que se encontra por trás dessa persona mística. Sua difícil
relação com o pai, sua difícil relação com as frustações, tudo isso é analisado
em seu filme. Até mesmo com doses de psicanálise freudiana, quando a mulher com
qual se apaixona é interpretada pela mesma de sua mãe, porém de maneira ainda
mais caricata, com o corpo pintado de diversas cores, um cabelo longo
vermelho-falso, maquiagem exagerada, bebendo uma estrondosa caneca de cerveja
em poucos goles, sempre exigindo que a desafiem. O encontro dos dois foi de
pura explosão, já que ele vai num bar onde todos são idosos e vestem-se como
num funeral, paredes cinzas e poucos clientes, quando ela surge é como se
rompesse com todo o cinza que existisse no próprio Alejandro.
Outra relação que é extremamente cômica e bela é com seu
amigo Enrique Lihn, que é um conhecido poeta chileno. Os dois se conhecem numa
festa promovida por Jodorowsky, desde então parecem desafiar o poder afirmativo
e chocante da arte. Uma sequência que é de extrema diversão é quando caminham
em uma única direção, invadindo até mesmo a casa de uma mulher por pura
afirmação. O egoísmo do diretor é retratado de forma mais intensa na relação
entre eles, onde vivem uma espécie de competição artística, por parte saudável
em outra tão complexa e triste, que parece os matar aos poucos. Gradativamente,
ele vai ficando sozinho, introduzindo-se no ocultismo e se tornando quem é. De
certa forma, existe um espelhamento deste filme com o primeiro, por conta de
seu fim, Alejandro parte novamente com o sentimento de incompreensão, dizendo
“vou tornar o surrealismo grande novamente”, ainda sem o contato com o cinema,
pois estava por passar pelo teatro da crueldade, por diversas experiências,
porém o mais poderoso de fato é como significa cada uma dessas experiências e
as expressa cheia de re-pontuações, cheia de pontos de encontros que maximizam
as minúcias, encarnando a poesia surrealista por toda sua linguagem. Pode-se analisar pequenos símbolos utilizados
no filme para diversos momentos, os símbolos fálicos, as cores, os atos (pois
como comentaram “a poesia é um ato”), tudo isso é um sinal de análise de si, de
sua significação sobre o mundo, o encontro do homem com o mundo.
Esse segundo filme consegue ser mais divertido que o
primeiro, já que toca em temáticas mais universais, sem deixar de lado o
caráter pessoal e intimista que são seu principal motor. Tudo que ele deixou
para o mundo, em suas potentes artes foram de grande importância para trazer um
surrealismo lisérgico e ocultista para um público maior. Estamos acompanhados
seus passos e seus rastros construindo um mapa de sua memória, de sua
linguagem. Por isso, Poesia Sem Fim é um belíssimo poema, ou melhor um
belíssimo filme sobre a vida de um homem (que sim, fez coisas que certamente
não são louváveis, não há como negar algumas ações extremamente maliciosas –
que dificilmente serão retratas nesta autobiografia) que viveu o ato poético,
para o bem ou para o mal.
“Lá onde existem ouvidos, mas
não há canções, neste mundo que se desvanece, o ser se oferece a quem não
merece, sou muito mais meus rastros que meus passos”
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