sábado, 18 de novembro de 2017

2016 – Poesia Sem Fim (Alejandro Jodorowsky, Chile) **** (4.0)

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Este segundo filme no projeto autobiográfico, e levemente narcísico de Alejandro Jodorowsky, é recheado de momentos icônicos e pode se dizer até históricos para o surrealismo, principalmente para o concerne deste movimento artístico no Chile. É um filme absurdo, mas consciente de si, por isso é extremamente envolvente. Narrando o momento que o jovem Jodorowsky instigado, muda-se para Santiago com os pais, e passa a conhecer os segredos e poesias de uma grande cidade, assim como se constitui como um artista, mas ainda perdido.
            
Não há como negar que em muitos casos o surrealismo é utilizado para salientar detalhes que reunidos de certa forma causam um agenciamento onírico, dessa forma, a história se expressa em peculiaridades que se ressaltam. De início, Alejandro conhece a homossexualidade, revolta-se contra família, percebe como todos estão doentes quando não se contagiam pela eletricidade da vida. Eletricidade esta iniciada com seu encanto pela poesia em meio a toda estranheza e exclusão. A escolha mais certeira do diretor foi avançar no tempo para quando estava para se tornar um adulto, em que começa a sua experimentação como artista. É divertido ver a forma idealista, ingênua e fantástica com qual Alejandro e seus companheiros conseguiam construir a concepção de arte. A todo momento também se percebe certo egoísmo e complexo de grandeza no seu protagonista, é aí que incide um dos pontos mais cruciais e impressionantes dessa sua proposta autobiográfica, a potência terapêutica que existe nessa análise de si mesmo.

As suas pontuações já haviam sido maravilhosas no primeiro filme “A Dança da Realidade”, porém aqui se tornam tão incisivas e profundas que fazem tocar o verdadeiro homem que se encontra por trás dessa persona mística. Sua difícil relação com o pai, sua difícil relação com as frustações, tudo isso é analisado em seu filme. Até mesmo com doses de psicanálise freudiana, quando a mulher com qual se apaixona é interpretada pela mesma de sua mãe, porém de maneira ainda mais caricata, com o corpo pintado de diversas cores, um cabelo longo vermelho-falso, maquiagem exagerada, bebendo uma estrondosa caneca de cerveja em poucos goles, sempre exigindo que a desafiem. O encontro dos dois foi de pura explosão, já que ele vai num bar onde todos são idosos e vestem-se como num funeral, paredes cinzas e poucos clientes, quando ela surge é como se rompesse com todo o cinza que existisse no próprio Alejandro.
            
Outra relação que é extremamente cômica e bela é com seu amigo Enrique Lihn, que é um conhecido poeta chileno. Os dois se conhecem numa festa promovida por Jodorowsky, desde então parecem desafiar o poder afirmativo e chocante da arte. Uma sequência que é de extrema diversão é quando caminham em uma única direção, invadindo até mesmo a casa de uma mulher por pura afirmação. O egoísmo do diretor é retratado de forma mais intensa na relação entre eles, onde vivem uma espécie de competição artística, por parte saudável em outra tão complexa e triste, que parece os matar aos poucos. Gradativamente, ele vai ficando sozinho, introduzindo-se no ocultismo e se tornando quem é. De certa forma, existe um espelhamento deste filme com o primeiro, por conta de seu fim, Alejandro parte novamente com o sentimento de incompreensão, dizendo “vou tornar o surrealismo grande novamente”, ainda sem o contato com o cinema, pois estava por passar pelo teatro da crueldade, por diversas experiências, porém o mais poderoso de fato é como significa cada uma dessas experiências e as expressa cheia de re-pontuações, cheia de pontos de encontros que maximizam as minúcias, encarnando a poesia surrealista por toda sua linguagem.  Pode-se analisar pequenos símbolos utilizados no filme para diversos momentos, os símbolos fálicos, as cores, os atos (pois como comentaram “a poesia é um ato”), tudo isso é um sinal de análise de si, de sua significação sobre o mundo, o encontro do homem com o mundo.
            
Esse segundo filme consegue ser mais divertido que o primeiro, já que toca em temáticas mais universais, sem deixar de lado o caráter pessoal e intimista que são seu principal motor. Tudo que ele deixou para o mundo, em suas potentes artes foram de grande importância para trazer um surrealismo lisérgico e ocultista para um público maior. Estamos acompanhados seus passos e seus rastros construindo um mapa de sua memória, de sua linguagem. Por isso, Poesia Sem Fim é um belíssimo poema, ou melhor um belíssimo filme sobre a vida de um homem (que sim, fez coisas que certamente não são louváveis, não há como negar algumas ações extremamente maliciosas – que dificilmente serão retratas nesta autobiografia) que viveu o ato poético, para o bem ou para o mal.

“Lá onde existem ouvidos, mas não há canções, neste mundo que se desvanece, o ser se oferece a quem não merece, sou muito mais meus rastros que meus passos”

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