
A sequência deste filme de
ação parece ter achado seu tom, o que engradeceu sua continuação. Se no
primeiro filme, a tentativa de se levar a sério entrava em conflito com as
paródias narrativas, este segundo filme não se leva a sério em nenhum momento,
todas opções narrativas e técnicas servem-se apenas para a diversão, uma diversão
consciente de si, mas nunca distanciadora. Com esta proposta no âmbito
produtivo, em seu enredo, John Wick se vê obrigado a fazer mais um trabalho por
conta de um contrato que ainda tinha, o que o leva a entrar numa guerra contra
quase todo submundo da máfia.
Logo de início, Stahelski enquadra uma projeção dos
filmes de Buster Keaton num grande prédio, então parte para uma cena de
perseguição, que ao invés de focar-se nas batidas e colisões em um plano
aberto, foca nos movimentos dos carros nas ruas. Ao referenciar Keaton, insere
a consciência de si e a potência da comédia/ação (muito mais utilizada pelos
asiáticos, o que justifica até mesmo a maior liberdade e clareza com que os
mesmos produzem suas cenas de ação). Não é que seja cômico ou hilário assistir
Keanu Reeves lutar com dez, doze homens, mas sim, saber como produzir a ação de
maneira clara, crível e entusiasmante. Keaton, foi um diretor/ator do cinema
burlesco, na era do cinema mudo, era um gênio neste quesito, não usava dublês,
tinha ideias extremamente perigosas e sempre as colocava em prática em seus
filmes, como não havia uma quantidade grande de rolos acessíveis, não podiam
desperdiça-las também. Além disso, sem a possibilidade fala, o diretor fazia o
visual, o movimento, a ação propriamente dita dizer tudo que o filme precisava
contar.
Assim, as cenas de ação do filme continuam exuberantes
acompanhadas das fotografias Neon, em que o roxo sempre se sobressai. Vale
ressaltar ainda, em conjunção à comédia burlesca, a cena poderosa que John Wick
enfrenta diversos inimigos numa sala de espelhos, (que, além disso, é uma obra
contemporânea em um museu de arte) retomando fortemente a cena da sala de
espelhos de O Circo de Chaplin, outro diretor/ator genioso com o cinema de
comédia/ação. Não existe uma cena especifica de luta que seja a melhor, todas
têm certo frescor e interessam o espectador. Em seu primeiro filme sua
motivação era seu carro, aqui neste filme, se intensifica a percepção de um
processo ruim de seu passado, tornando tudo mais intenso e abrindo o mundo de
mafiosos construídos pelo Diretor e Roterista. Tendo isso em vista, o longa
volta ao essencial do cinema de ação, ou seja, constrói cenas complexas de
serem realizadas, visualmente poderosas causando ao espectador uma sensação de
truque de mágica, “como foi que eles fizeram isto?”. Veja bem, o filme usa pouquíssimo
do CGI, tornando tudo recheado de relevo, por mais inverossímil que em certos
momentos pareça.
Para ressaltar ainda mais suas cenas de ação, tornando-as
críveis, porém inusitadas (esse “novo”, essa “surpresa”, constroem um fator
cômico, que se confugira propriamente em entusiasmo), como na cena em que todos
os assassinos contratados, por toda parte, por todo canto, buscam John Wick. É
um momento digno de um musical, em que qualquer um dos figurantes ao seu redor
pode começar uma luta, ou melhor, uma dança. A sequência em que Keanu Reeves é
perseguido pelo Common, dentro do metrô, os dois trocam tiros com armas
acopladas à silenciadores. De forma surpreendente tudo é completamente
encoberto, pela música, pelo barulho do ambiente, é como existisse também uma
relação forte do seu filme com os musicais.
Portanto, John Wick 2, volta com um enredo próximo ao do
seu primeiro filme, com poucas alterações, porém aperfeiçoa-se esteticamente.
Assumindo suas referências claras e aceitando a potência irônica da ação, a
seriedade da luta e loucura da mesma.
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