
Uma empreitada
interessantíssima num gênero do cinema dominado por protagonistas femininas,
porém sempre introduzidas por diretores masculinos. XX (título que remete ao
gene feminino) é uma antologia com quatro diretoras, a estreante Annie Clarke
(mais conhecida no mundo da música como sua persona St. Vincent), Jovanka
Vuckovic e Roxanne Benjamin, que já haviam produzido alguns curtas, alguns até
mesmo premiados e por fim, Karyn Kusama, que já realizou filmes de grandes
estúdios como Garota Infernal e Aeon Flux, porém só conseguiu realizar um
grande filme, de fato, com o cinema independente em seu O Convite. Infelizmente,
a potencialidade existente nesta incursão feminina não se tornou tão poderosa
quanto esperada.
O primeiro curta se chama “A Caixa”, dirigido por
Jovanka. De todos com certeza o mais instigante, assim como o único que causou
certo horror em sua perspectiva. O enredo é simples, na noite Natal uma mulher
volta para casa de metrô, com seus dois filhos, o garoto acaba dando uma
espiada na caixa de presente de um sujeito e desde então deixa de comer.
Brincando ao máximo com psicológico dos personagens em correlação ao do
espectador, o medo do desconhecido cresce e se torna fundador de todo este
segmento. A montagem do curta, também, é extremamente poderosa, ao mostrar a
passagem de tempo a partir apenas dos momentos de refeições da família, enquanto
o jovem garoto definha-se. Existe todo um terror sobre a fome do ser humano que
é facilmente associada ao desconhecido, enquanto a mãe não sabe o que foi que
seu filho viu, sua fome cresce. Tendo isso em vista, com certeza é o segmento
mais cinematográfico de todos, além de conter uma das mais intensas cenas de
toda a antologia, durante o sono da mãe.
O segundo segmento se chama “A Festa de Aniversário”,
dirigindo por Annie Clarke, demonstrando uma forte veia cômica que brinca com
os signos do horror. No dia do aniversário de sua filha, uma mãe encontra seu
marido morto, dessa forma, tenta esconder o corpo de alguma forma em casa sem
que ninguém se dê conta. Usando dos comuns sustos guiados pela música para
construir a ambientação clichê e usual do cinema de terror, porém sempre
revelando situações de comédia. O próprio design de produção não propõe um tom
obscuro e sim colorido, infelizmente o curta não consegue com seu enredo
envolver o espectador, se tornando apenas suportável pela ótima atuação de
Melanie Lynskei como a mãe, ela se apropria muito bem destes tipos de comédias
inusitadas. O fim do curta propõe uma certa visão psicanalítica de toda a
situação que no fundo surgem de maneira um pouco forçada já que não houve uma
real construção disso durante todo o curta.
O terceiro curta se chama “Não Caia” de Roxanne Benjamin,
o mais curto e com menos pretensões de toda antologia. Narrando brevemente a
aventura de um grupo de amigos nos cânions americanos, onde uma das garotas, a
tachada de mais fraca e delicada do grupo é picada por um escorpião, o que faz se
transformar num monstro caçando seus amigos. Produzindo uma metáfora clichê e
pouco trabalhada também nos seus poucos minutos. (Carrie, A Estranha é um ótimo
exemplo de como usar da mesma metáfora de maneira realmente forte). Podendo-se
fazer apenas uma ressalva para a maquiagem e fotografia que estão
impressionantes, o uso de luz e do movimento de câmera são belíssimos, e a
maquiagem é cheia de relevo, cumprindo seu papel de construir uma criatura
horrível e palpável.
O último segmento é o que mais tem pretensões,
infelizmente acaba por se guiar por uma temática muito habitual, sem tentar ser
aterrorizante. Narrando a história de uma mãe, sugestivamente superprotetora,
que, no aniversário de dezoito anos de seu filho, não permite que ele conheça
seu pai. Trazendo diversas referência ao Bebê de Rosemary, o filme traz um
fervor um pouco absurdo ao amor materno, quase sugerindo uma proposição de
alienação parental. Mesmo que o pai do garoto realmente seja o diabo. Sua
semelhança com diversos outras temas já trabalhados tornam o desenrolar da
narrativa extremamente cansativa, mesmo que haja certa inventividade visual
mais para o fim.
Alguns pontos atravessam todas as narrativas, além de
claro das animações em stop-motion que surgem entre os segmentos. Existe certa
tendência da figura feminina ser a mãe, quase aos moldes psicanalíticos,
concentrando-se nessa esfera nuclear de uma maneira ou de outra, perdendo até
mesmo certa possibilidade de explorar outras realidades femininas que não as já
incessantemente exploradas nos filmes de Terror. Além disso, seus comentários
em subtexto parecem sempre escaparem, pois são amarrada ás narrativas de forma
frouxa.
Portanto, XX é uma ótima ideia, é desejável que houvessem
mais propostas como essas, existe uma política muito importante sendo feita
aqui, por mais que a qualidade geral não seja das melhores ainda. É gerando
espaço e investindo que se muda essa perspectiva desbalanceada entre os gêneros
no cinema.
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