terça-feira, 7 de novembro de 2017

2017 – XX (Roxanne Benjamin, Annie Clark, Jovanka Vuckovic e Karyn Kusama, EUA) *** (2.5)

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Uma empreitada interessantíssima num gênero do cinema dominado por protagonistas femininas, porém sempre introduzidas por diretores masculinos. XX (título que remete ao gene feminino) é uma antologia com quatro diretoras, a estreante Annie Clarke (mais conhecida no mundo da música como sua persona St. Vincent), Jovanka Vuckovic e Roxanne Benjamin, que já haviam produzido alguns curtas, alguns até mesmo premiados e por fim, Karyn Kusama, que já realizou filmes de grandes estúdios como Garota Infernal e Aeon Flux, porém só conseguiu realizar um grande filme, de fato, com o cinema independente em seu O Convite. Infelizmente, a potencialidade existente nesta incursão feminina não se tornou tão poderosa quanto esperada.
            
O primeiro curta se chama “A Caixa”, dirigido por Jovanka. De todos com certeza o mais instigante, assim como o único que causou certo horror em sua perspectiva. O enredo é simples, na noite Natal uma mulher volta para casa de metrô, com seus dois filhos, o garoto acaba dando uma espiada na caixa de presente de um sujeito e desde então deixa de comer. Brincando ao máximo com psicológico dos personagens em correlação ao do espectador, o medo do desconhecido cresce e se torna fundador de todo este segmento. A montagem do curta, também, é extremamente poderosa, ao mostrar a passagem de tempo a partir apenas dos momentos de refeições da família, enquanto o jovem garoto definha-se. Existe todo um terror sobre a fome do ser humano que é facilmente associada ao desconhecido, enquanto a mãe não sabe o que foi que seu filho viu, sua fome cresce. Tendo isso em vista, com certeza é o segmento mais cinematográfico de todos, além de conter uma das mais intensas cenas de toda a antologia, durante o sono da mãe.
            
O segundo segmento se chama “A Festa de Aniversário”, dirigindo por Annie Clarke, demonstrando uma forte veia cômica que brinca com os signos do horror. No dia do aniversário de sua filha, uma mãe encontra seu marido morto, dessa forma, tenta esconder o corpo de alguma forma em casa sem que ninguém se dê conta. Usando dos comuns sustos guiados pela música para construir a ambientação clichê e usual do cinema de terror, porém sempre revelando situações de comédia. O próprio design de produção não propõe um tom obscuro e sim colorido, infelizmente o curta não consegue com seu enredo envolver o espectador, se tornando apenas suportável pela ótima atuação de Melanie Lynskei como a mãe, ela se apropria muito bem destes tipos de comédias inusitadas. O fim do curta propõe uma certa visão psicanalítica de toda a situação que no fundo surgem de maneira um pouco forçada já que não houve uma real construção disso durante todo o curta.
            
O terceiro curta se chama “Não Caia” de Roxanne Benjamin, o mais curto e com menos pretensões de toda antologia. Narrando brevemente a aventura de um grupo de amigos nos cânions americanos, onde uma das garotas, a tachada de mais fraca e delicada do grupo é picada por um escorpião, o que faz se transformar num monstro caçando seus amigos. Produzindo uma metáfora clichê e pouco trabalhada também nos seus poucos minutos. (Carrie, A Estranha é um ótimo exemplo de como usar da mesma metáfora de maneira realmente forte). Podendo-se fazer apenas uma ressalva para a maquiagem e fotografia que estão impressionantes, o uso de luz e do movimento de câmera são belíssimos, e a maquiagem é cheia de relevo, cumprindo seu papel de construir uma criatura horrível e palpável.
            
O último segmento é o que mais tem pretensões, infelizmente acaba por se guiar por uma temática muito habitual, sem tentar ser aterrorizante. Narrando a história de uma mãe, sugestivamente superprotetora, que, no aniversário de dezoito anos de seu filho, não permite que ele conheça seu pai. Trazendo diversas referência ao Bebê de Rosemary, o filme traz um fervor um pouco absurdo ao amor materno, quase sugerindo uma proposição de alienação parental. Mesmo que o pai do garoto realmente seja o diabo. Sua semelhança com diversos outras temas já trabalhados tornam o desenrolar da narrativa extremamente cansativa, mesmo que haja certa inventividade visual mais para o fim.
            
Alguns pontos atravessam todas as narrativas, além de claro das animações em stop-motion que surgem entre os segmentos. Existe certa tendência da figura feminina ser a mãe, quase aos moldes psicanalíticos, concentrando-se nessa esfera nuclear de uma maneira ou de outra, perdendo até mesmo certa possibilidade de explorar outras realidades femininas que não as já incessantemente exploradas nos filmes de Terror. Além disso, seus comentários em subtexto parecem sempre escaparem, pois são amarrada ás narrativas de forma frouxa.
            
Portanto, XX é uma ótima ideia, é desejável que houvessem mais propostas como essas, existe uma política muito importante sendo feita aqui, por mais que a qualidade geral não seja das melhores ainda. É gerando espaço e investindo que se muda essa perspectiva desbalanceada entre os gêneros no cinema. 

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