Voltando as histórias Antoine
Doinel, Truffaut nos apresenta mais um filme cômico sobre as dificuldades de se
manter um relacionamento e um continuo estudo de si mesmo. Nesse momento de sua
vida Antoine, casado com Christine, vive uma vida de casado comum, com um
emprego inusitado e continua sendo completamente irrepreensível.
É realmente interessante reconhecer que Antoine deixou de
ser aquele jovem perdido e agora, é um adulto um pouco menos perdido. Ele e
Christine moram num apartamento em que todos se conhecem, se comunicam pelas
janelas, todas as vidas parecem muito coladas, mas eles se sentem bem com esse
tipo vivência. Engraçado é ver Antoine trabalhando rigorosamente para melhorar
seu trabalho, ele pinta rosas para uma floricultura, pretendo alcançar o verdadeiro
vermelho com suas técnicas mirabolantes. Em diversos momentos o filme expressa
o cotidiano de um casal, os poucos momentos que eles realmente estão juntos são
quando vão almoçar com os pais de Christine ou quando vão dormir.
Truffaut permite aos atores momentos de puro devaneio,
como no momento que temos a impressão de presenciar um propaganda de uma pasta
de dente. Jean-Pierre Léaud continua excepcional, interpretando Antoine com
total intensidade e leveza. Claude Jade, também continua ótima, tendo uma olhar
sincero e um sorriso tão bonito. Sua personagem ganha conotações ainda mais
interessantes no momento em que os personagens começam a se aprofundar na comum
vida de casados. Truffaut ainda usa das imagens nas ruas, nos encontros comuns
cotidianos para realmente narrar a histórias, não se prendendo completamente
aos diálogos, agindo como alguém não só que conhece o que faz, mas alguém que
se diverte com o que faz.
Assim, quando o protagonista começa a adentrar num
possível relacionamento extraconjugal, o próprio filme já havia se preparado
para tal fato, Antoine é apaixonado por flores, acha que realmente entende
delas, mas afirma “os japoneses que entendem de jardins”, não é à toa que se
apaixona por uma japonesa em viagem à Paris. Com as cores e reações quase oníricas
Truffaut constrói as dificuldades culturais entre os dois, apesar de admiração
por ambas as partes. Dessa forma, o diretor desdobra a história por momentos
metalinguísticos e sutis, como fala Christine para Antoine que estava por
escrever um livro da sua vida “Se usar a arte para acertar as contas, isso
deixa de ser arte”, ou até mesmo próximo do fim do filme, uma mulher diz para
Antoine “se você não segue a política, você não vai se dar bem no fim, pior
ainda no fim do mês” e ele responde “no fim do mês, no fim da estrada, no fim
do filme. Odeio coisas que terminam”. Assim, como nós espectadores gostaríamos
de ficar um pouco mais com esse personagem tão vivo e seu universo tão
cotidiano, mas relativamente mais caricato por conta de uma montagem muito sábia.
Portanto, não acredito que esse filme tenha sido um “run
for cover”, ou seja, uma vontade de voltar a um universo criado procurando uma
zona de conforto, mas sim da necessidade de um sujeito de contar sua própria
história. Contudo, não é um ato puramente projetivo, a montagem está aí para
isso, para ele se desprender de si mesmo (do ego), por isso o filme nos
conquista e como disse Antoine “do pessoal para o universal”.

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