quinta-feira, 20 de abril de 2017

1970 – Domicílio Conjugal (François Truffaut, França) ****1/2 (4.5)

 photo bed-and-board-e1396872902391_zps0hvf6orf.jpg



Voltando as histórias Antoine Doinel, Truffaut nos apresenta mais um filme cômico sobre as dificuldades de se manter um relacionamento e um continuo estudo de si mesmo. Nesse momento de sua vida Antoine, casado com Christine, vive uma vida de casado comum, com um emprego inusitado e continua sendo completamente irrepreensível.
            
É realmente interessante reconhecer que Antoine deixou de ser aquele jovem perdido e agora, é um adulto um pouco menos perdido. Ele e Christine moram num apartamento em que todos se conhecem, se comunicam pelas janelas, todas as vidas parecem muito coladas, mas eles se sentem bem com esse tipo vivência. Engraçado é ver Antoine trabalhando rigorosamente para melhorar seu trabalho, ele pinta rosas para uma floricultura, pretendo alcançar o verdadeiro vermelho com suas técnicas mirabolantes. Em diversos momentos o filme expressa o cotidiano de um casal, os poucos momentos que eles realmente estão juntos são quando vão almoçar com os pais de Christine ou quando vão dormir.
            
Truffaut permite aos atores momentos de puro devaneio, como no momento que temos a impressão de presenciar um propaganda de uma pasta de dente. Jean-Pierre Léaud continua excepcional, interpretando Antoine com total intensidade e leveza. Claude Jade, também continua ótima, tendo uma olhar sincero e um sorriso tão bonito. Sua personagem ganha conotações ainda mais interessantes no momento em que os personagens começam a se aprofundar na comum vida de casados. Truffaut ainda usa das imagens nas ruas, nos encontros comuns cotidianos para realmente narrar a histórias, não se prendendo completamente aos diálogos, agindo como alguém não só que conhece o que faz, mas alguém que se diverte com o que faz.
            
Assim, quando o protagonista começa a adentrar num possível relacionamento extraconjugal, o próprio filme já havia se preparado para tal fato, Antoine é apaixonado por flores, acha que realmente entende delas, mas afirma “os japoneses que entendem de jardins”, não é à toa que se apaixona por uma japonesa em viagem à Paris. Com as cores e reações quase oníricas Truffaut constrói as dificuldades culturais entre os dois, apesar de admiração por ambas as partes. Dessa forma, o diretor desdobra a história por momentos metalinguísticos e sutis, como fala Christine para Antoine que estava por escrever um livro da sua vida “Se usar a arte para acertar as contas, isso deixa de ser arte”, ou até mesmo próximo do fim do filme, uma mulher diz para Antoine “se você não segue a política, você não vai se dar bem no fim, pior ainda no fim do mês” e ele responde “no fim do mês, no fim da estrada, no fim do filme. Odeio coisas que terminam”. Assim, como nós espectadores gostaríamos de ficar um pouco mais com esse personagem tão vivo e seu universo tão cotidiano, mas relativamente mais caricato por conta de uma montagem muito sábia.

            
Portanto, não acredito que esse filme tenha sido um “run for cover”, ou seja, uma vontade de voltar a um universo criado procurando uma zona de conforto, mas sim da necessidade de um sujeito de contar sua própria história. Contudo, não é um ato puramente projetivo, a montagem está aí para isso, para ele se desprender de si mesmo (do ego), por isso o filme nos conquista e como disse Antoine “do pessoal para o universal”. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário