quarta-feira, 5 de abril de 2017

1970 – O Garoto Selvagem (François Truffaut, França) ****1/2 (4.5)

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Truffaut optou por um filme em preto e branco, ao passo que seguia uma sequência muito boa com o cinema a cores, pode-se dizer que a temática o influenciou. Contando a real história de Victor de Aveyron, uma criança que agia como um animal e aparentemente foi deixado nas florestas para morrer. Ao acharem fazem o menino de atração de circo, porém um médico decide educa-lo. O médico é o primeiro papel importante do Truffaut, talvez pela proximidade com o tema, o amor que o diretor tem pela potência dos jovens que podem ser destruídas pela sociedade.Um filme sério, ao qual sentiu a necessidade de não se brincar com o visual.
            
Um dos questionamentos mais interessantes do filme é a que um dos médicos afirma que ele é tratado como um animal, por isso o maltratam. O personagem de Truffaut ficou abismado com o repúdio ao que não é humano. Como nós seres humanos podemos ser tão egocêntricos ao ponto de julgarmos os animais dessa forma. Logo, o personagem do Truffaut retruca que deve educa-lo e obviamente cuidar dele, como fazemos com os animais (alguns). Até por que a história de Victor de Aveyron é uma das provas do inacabamento biológico do homem, diferente de outros mamíferos, o ser humano não nasce andando e sabendo explorar os seus instintos, dessa forma existe uma necessidade da relação e do afeto, essa relação que constrói o homem tal qual como conhecemos. Victor é um ponto fora da curva que se relacionou com animais, talvez se fosse mais novo quando deixado na floresta morreria, mas por conta de suas relações, que permutava-se afeto, ele se constituiu de forma subversiva.  
            
Assim, Truffaut tenta mostrar a ele a vida civilizada, como se comunicar, o que é sentir frio, adaptando o corpo dele ao modelo tradicional de ser humano, mas por que não o permitiram ser quem ele já era? Aprendendo a construir um laço humano por meio da linguagem humana, das letras, por mais que ele já se comunicasse por gestos próprios, reações próprias, por mais que ele já tivesse uma linguagem, uma forma de língua extremamente estrangeira. Victor deixava de prestar atenção nos exercícios para contemplar a natureza, seus momentos favoritos eram os passeios, em que o diretor tinha o prazer de construir planos gerais situando o personagem imerso em toda a natureza e claro o apreço à água, fazendo uma conexão ao momento em que ele foi encontrado por caçadores, na beira de um rio.

            
O longa é um dos trabalhos mais sérios e singelos do diretor, remetendo-se ao seu filme de estreia Os Incompreendidos, que com toques extremamente sinceros e poéticos constroem uma expressão da juventude de forma exemplar. O Garoto Selvagem acaba por se tornar um filme sobre a potência da linguagem, do afeto, mesmo com línguas completamente diferentes e como nós tragamos as línguas estrangeiras para nossa própria língua e encobertamos os outros modos de expressão.

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