sábado, 29 de abril de 2017

2008 – Mártires (Pascal Laguier, França & Canadá) **** (4)

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Mártires é um daqueles filmes, ame ou odeie. Fazendo parte do Movimento de Cinema Extremo Francês, que usam de uma violência extremamente visceral para compor suas ideias, muito diferente do body-horror de Cronenberg, já que lá existe uma mutação do corpo, assimilação do corpo com as coisas e aqui é quase como uma transformação pela destruição e exposição. A história é sobre uma menina chamada Lucie que foi torturada quando pequena, após fugir, viveu numa instituição pediátrica, em que conheceu Anna, sua melhor amiga, juntas resolvem se vingar das pessoas que fizeram mal à ela.
            
A princípio parece mais um filme de violência e terror qualquer, em que Lucie é perseguida por um fantasma de seu passado, expresso em figura horrenda que a todo momento tenta matá-la, a ferindo constantemente. Anna, demonstra ter uma paixão completa pela sua amiga, ao mesmo tempo que um medo ensurdecedor por tudo que está acontecendo. Principalmente, porque somos apresentados aos seus possíveis torturadores, mas eles são como uma família normal e Lucie os mata com pouquíssima hesitação. E aos poucos a história começa a se revelar para seu real feito, sua real proposta. Que, de fato, está longe de ser meramente violento. Buscando em toda a tortura e dor de seus personagens uma redenção praticamente divina. O diretor soube dosar o ritmo de seu filme, em que narra com velocidade o primeiro momento e após a vingança o filme ganha um tom mais lento, tornando a tortura geral do filme não só física, mas psicológica, pois trabalha com o tempo dos planos em disparidades com as elipses narrativas.
            
Em certo momento do filme, quando uma das personagens é torturada incessantemente, por um longo tempo, seu rosto flui uma sensação de afeto tremenda, lembrando seriamente Maria Falconetti, em seu único papel na Paixão de Joanna D’Arc. Uma olhar vazio, ao mesmo tempo que parece enxergar tudo, um desenquadramento no rosto é construído nos planos minimalista e ascéticos de Dreyer, é uma Imagem-Afecção pura como diria Deleuze. O rosto como o maior centro de afeto do cinema, historicamente falando, e quando ele é exposto em tamanha intensidade no quadro que parece obtuso, pode ser a maior potência que o cinema tem. Em Mártires, filme de Laguier, o afeto se constrói de forma pura por um rosto e um corpo despido de forma violenta, que nos causa uma sensação de afeto muito profunda, possivelmente um intertexto é criado a partir desses olhares que se repetem, dois olhares que alcançaram um reação sublime. Quando o espectador entra em contato com tal imagem é como se a personagem tivesse seu rosto exposto de uma maneira que ele fosse apagado e começássemos a nos enxergar nele de maneira total, assim explodindo o processo de empatia. Além disso, o enredo expõe seu conteúdo tocando em alguns dos medos mais essenciais da consciência humana, a morte. Talvez por isso o afeto seja tão profundo e para alguns assustador.

            
Portanto, apesar de seu início que emula o clichê do gênero de terror, o filme consolida a máxima da violência visceral de seu movimento com um conteúdo assustador e ainda assim poético. Ele irá continuar na memória de quem assisti-lo seja pelo horror das cenas violentas, ou pelo seu final agoniante e inesperado. 

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