
Mártires é um daqueles filmes,
ame ou odeie. Fazendo parte do Movimento de Cinema Extremo Francês, que usam de
uma violência extremamente visceral para compor suas ideias, muito diferente do
body-horror de Cronenberg, já que lá existe uma mutação do corpo, assimilação
do corpo com as coisas e aqui é quase como uma transformação pela destruição e
exposição. A história é sobre uma menina chamada Lucie que foi torturada quando
pequena, após fugir, viveu numa instituição pediátrica, em que conheceu Anna,
sua melhor amiga, juntas resolvem se vingar das pessoas que fizeram mal à ela.
A princípio parece mais um filme de violência e terror
qualquer, em que Lucie é perseguida por um fantasma de seu passado, expresso em
figura horrenda que a todo momento tenta matá-la, a ferindo constantemente.
Anna, demonstra ter uma paixão completa pela sua amiga, ao mesmo tempo que um
medo ensurdecedor por tudo que está acontecendo. Principalmente, porque somos
apresentados aos seus possíveis torturadores, mas eles são como uma família
normal e Lucie os mata com pouquíssima hesitação. E aos poucos a história
começa a se revelar para seu real feito, sua real proposta. Que, de fato, está
longe de ser meramente violento. Buscando em toda a tortura e dor de seus
personagens uma redenção praticamente divina. O diretor soube dosar o ritmo de
seu filme, em que narra com velocidade o primeiro momento e após a vingança o
filme ganha um tom mais lento, tornando a tortura geral do filme não só física,
mas psicológica, pois trabalha com o tempo dos planos em disparidades com as
elipses narrativas.
Em certo momento do filme, quando uma das personagens é
torturada incessantemente, por um longo tempo, seu rosto flui uma sensação de
afeto tremenda, lembrando seriamente Maria Falconetti, em seu único papel na Paixão
de Joanna D’Arc. Uma olhar vazio, ao mesmo tempo que parece enxergar tudo, um
desenquadramento no rosto é construído nos planos minimalista e ascéticos de
Dreyer, é uma Imagem-Afecção pura como diria Deleuze. O rosto como o maior
centro de afeto do cinema, historicamente falando, e quando ele é exposto em
tamanha intensidade no quadro que parece obtuso, pode ser a maior potência que
o cinema tem. Em Mártires, filme de Laguier, o afeto se constrói de forma pura
por um rosto e um corpo despido de forma violenta, que nos causa uma sensação
de afeto muito profunda, possivelmente um intertexto é criado a partir desses
olhares que se repetem, dois olhares que alcançaram um reação sublime. Quando o
espectador entra em contato com tal imagem é como se a personagem tivesse seu
rosto exposto de uma maneira que ele fosse apagado e começássemos a nos
enxergar nele de maneira total, assim explodindo o processo de empatia. Além
disso, o enredo expõe seu conteúdo tocando em alguns dos medos mais essenciais
da consciência humana, a morte. Talvez por isso o afeto seja tão profundo e
para alguns assustador.
Portanto, apesar de seu início que emula o clichê do
gênero de terror, o filme consolida a máxima da violência visceral de seu
movimento com um conteúdo assustador e ainda assim poético. Ele irá continuar
na memória de quem assisti-lo seja pelo horror das cenas violentas, ou pelo seu
final agoniante e inesperado.
Nenhum comentário:
Postar um comentário