quarta-feira, 9 de agosto de 2017

1924 – Uma Vida Sem Alegria (Jean Renoir, França) ****1/2 (4.5)

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O primeiro filme da carreira de Jean Renoir, realizado ao lado de Albert Dieudonné, que também atua no filme. Existem diversas controvérsias sobre a produção deste longa, a atriz principal era a mulher de Renoir e nenhum dos dois diretores gostou do resultado final, criando para si, cada um, sua própria versão. Não importa muito saber de quem é essa versão de Renoir já estão presentes em cada frame. Narrando a história de Catherine, uma jovem sem muitas condições financeiras que perde seu emprego por conta dos ciúmes da esposa de seu chefe, um processo trágico, com certos momentos de comicidade.
            
Antes de elaborar sobre a história, deve-se atentar ao máximo no momento em que este filme produzido. Nesta fase do cinema francês, era quando Louis Delluc e outros produziam como Jean Epstein produziam manifestos do cinema, para torná-lo aos olhos de todos arte. (Algo que era feito também pelos soviéticos) Na França, o que se sobressaiu foi a possibilidade de captura, ou melhor captação de movimento que o cinema tinha, dessa forma, iniciou-se o impressionismo no cinema. A história de Catherine já inicia com o elemento mais apropriado deste movimento cinematográfico, a água. Em sua estética varia os tons do preto e branco para criar dois tipos de atmosfera, a cor azul para criar uma sensação mais aberta, em que há mais luz, ou o dia e o sépia para criar sensação de locais mais fechados ou ainda a noite. Algo que era muito comum para o pessoal do expressionismo alemão e do cinema mudo como um todo. Usando de close-ups inspirados no “wonder” de Griffith, em que luz cria uma aura de dúvida no rosto, ou melhor ambiguidade. 

A narrativa de Uma Vida Sem Alegria (que apesar do título existe um tom de comédia como Depois de Horas do Scorsese ou Inside Llewyn Davis do Irmãos Coen, em que uma sequência de ações parece dar errado) possui um aspecto muito comum do seu cinema, a oposição de proletários e burgueses, a hipocrisia burguesa e a comédia dramática. Quando Catharine é demitida e começa a trabalhar em outra casa, na qual o dono (interpretado por Dieudonné) tem problemas cardíacos e se apaixona por ela, existe uma sequência que é puro impressionismo, em que uma câmera subjetiva (produzindo a visão dos personagens) capta os movimentos de uma festa francesa, que lembra muito o Carnaval, na qual os burgueses não se misturaram. O movimento e o uso do “flou”, ou seja, um certo desfoque da câmera, constrói uma belíssima cena que remonta um quadro impressionista sem cor, ou melhor que pulsa o tom azul.
            
Se não bastasse tais recursos, próximo ao fim do filme, Renoir, ao filmar sua personagem num trem, encontra o suprassumo do movimento, usando de uma montagem acelerada e captando o movimento de forma tão intensa que ao fundir o cenário em movimento com o rosto da protagonista cria uma sensação de que ela está a se afogar num rio. Esse momento é tão intenso que a utilização de trens e sua velocidade nos filmes de Renoir se tornaram muito recorrentes, como por exemplo no Crime do Sr. Lange ou na Besta Humana, com o auxílio de uma montagem mais elaborada consegue com mais facilidade criar estas sensações angustiantes e quase oníricas de um movimento poderoso. A atuação de Catherine está até mesmo contida em comparação ao que viria ser em Nana, tornando-o um filme mais podado e organizado. Dessa forma, Renoir consegue, por mais que o filme não seja só seu, impregnar sua marca em cada plano, em cada elemento. Por mais que muitas das coisas só fossem se aprimorar, de fato, mais para frente.
            
Portanto, este filme é um deleite para os fãs do diretor que irão encontrar um Renoir ainda inexperiente com, por exemplo, o jogo de intrigas e tentacular dos personagens, porém, também encontrarão um sujeito com ímpeto e sem medo de experimentar na linguagem. O diretor organizou diversos signos numa história por vezes cômica, por vezes tristes que se torna muito mais interessantes, por conta de sua habilidade com os recursos cinematográficos da época. 

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