domingo, 6 de agosto de 2017

1981 – Eles Não Usam Black Tie (Leon Hirszman, Brasil) ****1/2 (4.5)

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Apesar de já ter sido produzido próximo do fim da ditadura, ainda consegue ser um dos filmes mais poderosos sobre a situação no país, sem o formato marginal que marcou o Cinema Novo, mas com uma potência política e artística intensa. Sendo, principalmente, um estudo atemporal do choque de gerações, como a época em que se vive e se cresce consegue ser um fator primordial para como o sujeito se porta, aliando-se notoriamente ao microcosmo familiar e suas peculiaridades. Hirszman narra a história de Tião e Maria, dois operários que decidem se casar, já que Maria está grávida, em plena eclosão de um movimento de greve na cidade de São Paulo.
            
Deve ressaltar, inicialmente, os personagens e seus atores, Tião, operário, filho de operário, um possível romântico que não fraqueja ao pedir sua mulher em casamento por mais que a situação não seja uma das melhores, situações tanto do país quanto de sua família. Carlos Riccelli constrói o personagem com certa ingenuidade e ternura, ao mesmo tempo parece cabeça dura. Sua relação com o pai e mãe é ótima, sua mãe, interpretada por Fernanda Montenegro e seu pai, interpretado magistralmente por Gianfrancisco Guarnieri. Otávio, pai de Tião, também é operário e vivenciou a irrupção de protesto contra a ditadura, as greves, toda a movimentação dos trabalhadores contra um governo repressor e explorador, tendo sido, até mesmo, preso. Já Maria, interpretada por Bete Mendes, parece ingênua, mas mostra-se intensa, tem uma relação mais complicada com sua família, seu pai alcoólatra, que aos poucos melhora, para voltar a trabalhar e ajudar a filha. Ela consegue ser mais pé firme, podendo dizer que é uma mulher que luta para ter poder de si mesma. Com esses personagens dispostos Hirszman os enquadra de maneira singela, sempre contra paredes, em locais fechadas, ou em caminhadas solitárias. Por vezes assaltos (como um sintoma das crises) intercalam momentos e momentos de discussão política e familiar.
            
Tendo em vista essa situação, existe a análise de discursos que perpassam uma movimentação política. Tião não aceita a greve, não por que é contra o movimento dos trabalhadores ou de melhorias para o trabalho. Mas, por que quer criar seu filho de forma presente, algo que não foi possível para seu pai que ficou preso por todo o período de sua infância, ou seja, existe medo, desejo, existe um emaranhado de afetos, nada é tão simples. Ao mesmo tempo que Maria, assim como Otávio, participam da greve, pois acreditam que por mais que a situação não melhore, deve-se lutar por seus direitos, deve-se lutar para melhorar. Durante a confusão dos protestos, se vê radicalismos de todos os lados, os membros do movimento dos trabalhadores espancam Tião, enquanto os policiais Maria. Dessa forma, existe um choque de discursos, de vidas e experiências, que intensificam o choque de gerações, a repressão do governo militarista (algo expresso não só durante os protestos) que, por mais que não vivemos mais numa ditadura, persiste. Hirszman consegue introduzir o espectador no fenômeno da greve, dos protestos do que acontece antes e depois, durante. Os momentos finais dos filmes são alguns dos mais memoráveis do cinema brasileiro. Seja o dialogo intenso entre Tião e Maria, que não só representa a luta do trabalhador comum, mas também da mulher contra a opressão masculina, e mais para o fim, a cena em que Otávio e sua mulher sentam-se à mesa a contar feijões, um silêncio ensurdecedor, grão por grão, dor por dor, amigos por amigos, tudo cai, tudo parece tão escasso. São momentos como esses silenciosos, solitários e por vezes intensos que preenchem a montagem do diretor, que produz um filme forte e sensível, um retrato implacável da sociedade brasileira.  
            
Leon Hirszman, um grande conhecedor do movimento do trabalhador, principalmente de São Paulo, dirige a peça do próprio Guarnieri de maneira apropriada. Criando ênfase nas atuações, usando de planos longos por vezes solitários, por vezes barulhentos, mas carregando uma melancolia poderosa de tempos de crise econômica, crise ética, crise de ideologia, numa crise que parece perdurar no Brasil até hoje. Como é assustador assistir ao filme e perceber que em 2017 pouquíssimo mudou.  

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