
Apesar
de já ter sido produzido próximo do fim da ditadura, ainda consegue ser um dos
filmes mais poderosos sobre a situação no país, sem o formato marginal que
marcou o Cinema Novo, mas com uma potência política e artística intensa. Sendo,
principalmente, um estudo atemporal do choque de gerações, como a época em que
se vive e se cresce consegue ser um fator primordial para como o sujeito se
porta, aliando-se notoriamente ao microcosmo familiar e suas peculiaridades.
Hirszman narra a história de Tião e Maria, dois operários que decidem se casar,
já que Maria está grávida, em plena eclosão de um movimento de greve na cidade
de São Paulo.
Deve ressaltar, inicialmente, os
personagens e seus atores, Tião, operário, filho de operário, um possível
romântico que não fraqueja ao pedir sua mulher em casamento por mais que a
situação não seja uma das melhores, situações tanto do país quanto de sua
família. Carlos Riccelli constrói o personagem com certa ingenuidade e ternura,
ao mesmo tempo parece cabeça dura. Sua relação com o pai e mãe é ótima, sua
mãe, interpretada por Fernanda Montenegro e seu pai, interpretado magistralmente
por Gianfrancisco Guarnieri. Otávio, pai de Tião, também é operário e vivenciou
a irrupção de protesto contra a ditadura, as greves, toda a movimentação dos
trabalhadores contra um governo repressor e explorador, tendo sido, até mesmo,
preso. Já Maria, interpretada por Bete Mendes, parece ingênua, mas mostra-se
intensa, tem uma relação mais complicada com sua família, seu pai alcoólatra,
que aos poucos melhora, para voltar a trabalhar e ajudar a filha. Ela consegue
ser mais pé firme, podendo dizer que é uma mulher que luta para ter poder de si
mesma. Com esses personagens dispostos Hirszman os enquadra de maneira singela,
sempre contra paredes, em locais fechadas, ou em caminhadas solitárias. Por
vezes assaltos (como um sintoma das crises) intercalam momentos e momentos de
discussão política e familiar.
Tendo em vista essa situação, existe
a análise de discursos que perpassam uma movimentação política. Tião não aceita
a greve, não por que é contra o movimento dos trabalhadores ou de melhorias
para o trabalho. Mas, por que quer criar seu filho de forma presente, algo que
não foi possível para seu pai que ficou preso por todo o período de sua infância,
ou seja, existe medo, desejo, existe um emaranhado de afetos, nada é tão
simples. Ao mesmo tempo que Maria, assim como Otávio, participam da greve, pois
acreditam que por mais que a situação não melhore, deve-se lutar por seus
direitos, deve-se lutar para melhorar. Durante a confusão dos protestos, se vê
radicalismos de todos os lados, os membros do movimento dos trabalhadores
espancam Tião, enquanto os policiais Maria. Dessa forma, existe um choque de
discursos, de vidas e experiências, que intensificam o choque de gerações, a
repressão do governo militarista (algo expresso não só durante os protestos)
que, por mais que não vivemos mais numa ditadura, persiste. Hirszman consegue
introduzir o espectador no fenômeno da greve, dos protestos do que acontece
antes e depois, durante. Os momentos finais dos filmes são alguns dos mais
memoráveis do cinema brasileiro. Seja o dialogo intenso entre Tião e Maria, que
não só representa a luta do trabalhador comum, mas também da mulher contra a
opressão masculina, e mais para o fim, a cena em que Otávio e sua mulher
sentam-se à mesa a contar feijões, um silêncio ensurdecedor, grão por grão, dor
por dor, amigos por amigos, tudo cai, tudo parece tão escasso. São momentos
como esses silenciosos, solitários e por vezes intensos que preenchem a
montagem do diretor, que produz um filme forte e sensível, um retrato
implacável da sociedade brasileira.
Leon Hirszman, um grande conhecedor
do movimento do trabalhador, principalmente de São Paulo, dirige a peça do
próprio Guarnieri de maneira apropriada. Criando ênfase nas atuações, usando de
planos longos por vezes solitários, por vezes barulhentos, mas carregando uma
melancolia poderosa de tempos de crise econômica, crise ética, crise de
ideologia, numa crise que parece perdurar no Brasil até hoje. Como é assustador
assistir ao filme e perceber que em 2017 pouquíssimo mudou.
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