
Um filme sobre Gertrude Bell e
sua grande aventura no deserto com certeza chama a atenção, ainda mais guiado
por um dos mestres em produzir filmes em ambientes adversos e da relação do
homem com o a natureza, Werner Herzog. Infelizmente, o que de fato se encontra
aqui é uma história que não dá potência a sua personagem, apenas a joga em
personagens secundários para que ela se desfaça, com uma estranha escolha de
elenco, em que uns funcionam, outros não e ainda uma condução de cenas que
destoam do tom épico do filme.
Gertrude Bell foi uma nobre inglesa que vai ao deserto no
Oriente Médio com o seu pai (um grande político envolvido nas guerras e no
imperialismo), todos os personagens parecem clamar para que ela, interpretada
de maneira simpática por Nicole Kidman, se case. O que infelizmente parece ser
o foco do filme. Logo de início, conhece um arqueólogo apaixonado pelo deserto,
por quem se casa de corpo e alma, numa atuação pouco convincente do James
Franco. Metade do filme consiste na relação dos dois e a bela conjunção
imagética dos dois de forma singular no deserto. Outros personagens são
introduzidos como o tenente que parece também se interessar por Gertrude e até
mesmo o famoso T. E. Lawrence. Sempre se tem uma visão da personagem a partir
de sua relação com os homens. Para piorar, percebe-se de forma muito intensa
que a personagem começa a amar o deserto, pois ama a um homem, o que passa a
não destituir seu amor pelo deserto, mas simplesmente a enfraquecê-la como
figura de uma potente mulher. Não é um problema conhecer a personagem, ou se
fazer entender pelos diversos discursos do outro, porém quando toda a sua
jornada de personagem se baseia unicamente na composição da voz de uma mulher a
partir de outros homens, acaba se tornando uma jornada fragilizada, muito por
conta, até mesmo, do aspecto histórico desta produção.
Dessa forma, o enredo começa a avançar em suas relações
políticas por meio dos personagens masculinos. Pouco a pouco, a personagem se
torna desinteressante. Isto também se deve à maneira que Herzog abordou o
filme, sem saber exatamente qual a verdadeira intenção que tinha. Em certo
momento, impondo uma direção de épico com planos gerais, que iniciam num plano
médio e partem para a grandiosidade do deserto e a pequenez dos personagens. A
fotografia e design de produção conseguiam dar ainda mais força a essa forma de
conduzir o filme, porém ao impor movimentos bruscos, que deslocavam a atenção
do espectador ao encanto do plano bruto e estático, fez a força da imagem se
perder aos poucos. Em certos momentos, o filme lembra a nova adaptação de
“Longe Deste Insensato Mundo” por Thomas Vinterberg, porém no filme do
dinamarquês existe um domínio de quando usar esses movimentos e quando deixar o
tom de época levar-se. Contudo, ainda é preciso dar ênfase na fotografia e na
locação utilizada, capturado de forma límpida a luz do Sol, a secura do deserto
e a imensa solidão que seus personagens parecem viver.
Herzog produziu um filme que se desfaz de sua premissa de
maneira covarde, o espectador acompanha as aventuras Gertrude, porém enquanto
está presa no fluxo dos homens que se apaixonam por ela. E pior, denotando que
seu único motivo de permanecer naquele lugar é um outro homem. Enfraquecendo a
figura feminina que ele mesmo propôs. Com um bom apreço técnico, porém com
deslizes irritantes, A Rainha do Deserto é um dos filmes mais fracos do diretor
que recentemente vem se perdendo no mundo da ficção.
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