domingo, 7 de janeiro de 2018

1947 – Mulher Desejada (Jean Renoir, EUA & França) **** (4.0)

 photo 3_zpsznr7kbhh.jpg

Um dos últimos longas do diretor trabalhando com a língua inglesa e seu último filme a se passar de fato nos Estados Unidos. É um belo trabalho envolto em mistério, percebe-se notoriamente que o longa parece picotado pelo estúdio, porém não chega a prejudicar o enredo. Narrando a história de um ex-soldado que desenvolve um transtorno de estresse pós-traumático, revivendo os eventos da guerra em seus sonhos, atualmente trabalha como policial de uma pequena cidade, que acaba por conhecer uma enigmática mulher na praia.
            
A sequência inicial do longa entra numa das grandes obsessões do diretor pela água e pelo movimento da mesma, sempre demonstrando como sua força carrega uma pulsação de vida. Bem, o que se apresenta é o sonho de Scott, o policial interpretado por Robert Ryan, uma fusão de uma bomba, de navios afundando, misturando os destroços dos barcos com o próprio corpo do personagem principal enquanto se perde no meio de tanta água. É uma verdadeira força movente da montagem cinematográfica, conseguindo criar o aspecto pictórico do sonho de maneira completamente coerente. Lembrando bastante do uso de efeito visuais simples e iniciais do cinema, como o muito belo cinema de Jean Vigo. De forma poética, na cidade litorânea, o policial vaga pelas praias desertas à cavalo, em travellings carregados de suspense, sempre com a sensação de que existe algo à espreita, ao mesmo tempo que se pensa na sua impossibilidade de entrar naquelas águas que vão e vem. A mulher enigmática, interpretada com maestria por Joan Bennet, um dia, envolta pela névoa, o convida para sua casa, construindo um arranjo de uma traição já que o protagonista está enamorado. Os dois se veem identificados um com o outro, pelo fato de serem atormentados pelo passado de certa forma.
            
Mas logo de início, a história apresenta o que de fato está para explorar é um triangulo amoroso formado por Scott, Peggy, a misteriosa mulher, e seu marido, um pintor cego chamado Tod. Mas a cegueira do personagem também se faz presente como um fantasma, que embaça a sua visão, que serve de metáfora para sua própria condição de estar impossibilitado de continuar algo. A relação dos três é muito forte, pois cada um apoia-se no outro construindo assim uma simbiose bem perturbadora. Seus diálogos até expõem isso de maneira por vezes até mesmo óbvia, mas é como se este arranjo tivesse tornando-se necessário, ao mesmo tempo que parecia que iria explodir a qualquer momento. Charles Bickford está muito bem como Tod, seu olhar realmente diz pouco, assim tornando suas ações e pensamentos em constante sigilo. Em um momento do longa, Tod e Scott decidem pescar no mar, vivenciando uma tempestade. A trucagem que em certos momentos estragou o visual interessantíssimo de “O Segredo do Pântano” volta a aparecer de maneira grosseira, o que acaba retirando o impacto que esta cena no revolto mar contém. Além disso, toda a expressão de fenômenos dos sonhos do personagem parece ecoar pela narrativa, como se ainda estivesse preso em seu trauma, mas não só ele, todos os três protagonistas se conectam por se ancorar demais em seus passados.
            
Por fim, se o longa parece um pouco picotado, com personagens, como a namorada de Scott, pouquíssimos desenvolvidos, ou uma narrativa levemente corrida. Tudo se torna mais aprazível em sua expressão poderosa de fluidez de movimento de câmera e com a total conexão de seus personagens e o seu ambiente. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário