
Este é o primeiro longa que
assisto do renomado diretor finlandês Aki Kaurismaki. Consegue ser simples e
irreverente ao mesmo tempo, com suas histórias que beiram o cotidiano, mas que
pulsam uma veia cômica muito própria. Neste longa, traz a história de Khaled,
que fugiu da Síria para a Finlândia em busca de refúgio político, porém com a
sua entrada negada passa a viver numa espera eterna para encontrar sua irmã e
um lar.
Percebe-se muito bem as suas inspirações estéticas. Em
certo grau o orientalismo nipônico de Ozu se faz presente pela montagem do
cotidiano, pelas cenas estáticas. Além de é claro do burlesco, sua comicidade é
tanto visual quanto nos diálogos desencontrados. Em seu cinema substitui o
espalhafatoso tão comum a este tipo de cinema pelo “deadpan”, corpos e rostos
com pouca expressividade, porém é essa ausência de movimentação que consegue
provocar o riso. O uso da fotografia, que faz encontrar cores com certa
inventividade, seus tons amenos em conjunto causam uma sensação até mesmo
cômica, além disso, de maneira exuberante faz a luz adentrar os ambientes, no
qual o protagonista faz parte, por uma fresta, explicitando a privação de
liberdade que ele sente neste país europeu. Aliás, o longa carrega um aspecto
minimalista, em que usa de muitos planos fechados, buscando no mínimo narrar
seu enredo. Tanto que todos os lugares parecem vazios demais, paredes frias
demais, até mesmo quando coloridas são blasé. Este aspecto em conjunto com a
comédia deadpan tornam a obra do diretor bem eficaz no que se propõe,
provocando o riso com o mínimo.
A narrativa se desenvolve por dois caminhos, o primeiro e
mais importante é o de Khaled que desesperadamente tenta encontrar sua irmã que
se perdeu na viagem e ao mesmo tempo que busca se adaptar ao mundo finlandês. O
segundo é o de homem que compra uma restaurante e tenta iniciar seu próprio
negócio, porém com muita dificuldade, com empregados inusitados começa a fazer
o local funcionar. Os dois enredos se encontram quando Khaled se esconde tanto
da polícia, quanto de xenófobos eugenistas, nos fundos do restaurante.
Wikstrom, o novo dono, percebe que deve ajudá-lo, porém foge de toda a
burocracia usual para colocá-lo dentro do trabalho. É impossível não se
identificar com os dois protagonistas do longa que batalham a cada minuto por
um lugar no mundo. São homens de ideais diferentes, mas que se conectam por uma
força de vontade impressionante.
Kaurismaki demonstra com bastante notoriedade que as
sociedades supostamente perfeitas nórdicas também não estão perfeitamente bem
com a crise europeia, além de que também não são a utopia ética que alguns
tentam propor. Ele consegue acusar com simplicidade e por muitas vezes de forma
cômica que o que mais falta ao seu povo, enrijecido pelo frio, é humanidade. É
importantíssimo um filme como esse, que busca mostrar de certa forma um
otimismo, trazendo um tema tão polêmico e atual como o dos imigrantes sírios
pela Europa para apresentá-lo como uma comédia. Não precisando adentrar num
melodrama, numa carga dramática perturbadora para aprofundar-se sobre o tema e
explorá-lo.
Para completar, o ritmo do filme é muito preciso,
carregando as duas histórias maneira com que se completem e se tornem
necessárias uma para outra. Intercalando todos os momentos com um rock
impregnado de blues finlandês, são músicos de rua ou no palco, que se fazem
presente nas cenas, fazendo parte do som diegetico. O que corrobora para
produzir um sabor ainda mais especial ao estilo do diretor.
Portanto, O Outro Lado da Esperança, apresenta a difícil
situação do povo sírio nos países europeus, além da dificuldade da crise
europeia. Fazendo os temas convergiram não utilizando puramente de um drama,
mas de uma comédia feita nos menores movimentos possíveis, nas imagens tão
intrigantes que constrói.
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