
Esse foi o primeiro filme de
Renoir nos EUA, tentando realmente se integrar ao cenário novo. Diferente do
resultado de Essa Terra é Minha, conseguiu explorar melhor suas habilidades num
ambiente rural e cercado por natureza. Por mais que se perceba algumas
dificuldades na adaptação ao ambiente novo, narrando a história de Ben, um
jovem caçador que, ao perder o seu cão no Pântano de Okefenokee, encontra um
foragido e desenvolve uma grande amizade.
Em termos técnicos o filme é um deleite visual, retirando
algumas cenas que são gravadas em estúdio com uma trucagem extremamente mal
realizada, talvez seja pela falta de uso do diretor francês. Porém, com a
possibilidade de gravar num pântano real, proporcionou uma ambientação
espetacular, o movimento da água que inunda a região é de uma força natural
muito bela. Consegue muito bem expressar de maneira simples a relação dos dois
personagens que se encontram e findam uma amizade. Keefer foi acusado por um crime
que não cometeu e vive como um homem das cavernas, caçando com pequenas facas,
sobrevivendo. A relação dos dois sujeitos é de completo aprisionamento, o
aspecto da locação constrói todo esse sentimento de enclausuramento deste
personagem que está há anos sem ver a filha, pois se voltar à cidade será
condenado a morte.
Já Ben
vive em outro tipo de prisão, uma prisão de costumes, sempre considerado como
alguém não tão competente como outros caçadores, assim como preso à uma mulher
que busca sua atenção ao casamento o tempo todo. A maneira que Renoir usa do
movimento de câmera é exemplar, conseguindo passear de maneira fluída pelo
emaranhado de folhas. Além de que obviamente, neste filme americano,
encontra-se um dos símbolos mais importantes da filmografia do diretor, apesar
de não ser exatamente um rio, mas a água que inunda o pântano tem o mesmo
potencial de mudança, de convulsão da vida e de movimento inexorável.
Trabalhar no interior dos Estados Unidos tornou Renoir
muito confortável com seus personagens humildes. Conseguiu trazer o frescor
humanista do realismo poético. A jornada de Ben, que procura ajudar a filha de
Keefer, assim como a ajuda-lo, transformam sua vida, sua perspectiva de
aprisionamento. Dessa forma, ele escapa das leis e dos costumes locais para
buscar uma vida mais própria, como gostaria que fosse. A figura do excluído se
encontra em Keefer, aquele que foi obrigado a fugir da sociedade. Mas diferente
de outros personagens do diretor, ele, por mais que contenha um pessimismo em
relação à sociedade na qual vive, ainda sonha em voltar para ela, muito por
conta de sua filha. Os momentos finais do filme são um verdadeiro deleite
visual para narrativa, a maneira com que os dois protagonistas conhecem o
pântano e o utilizam para conseguir o que desejam é como se eles estivessem
dominando, excedendo os limites impostos a eles. Enquanto outros personagens,
se molham, sujam, se prendem e afundam no ambiente, se sufocam na própria
prisão que desconhecem viver. É neste ponto que este filme é realmente uma obra
de Renoir, no momento que diz com o seu movimento de câmera, com sua
ambientação tudo que precisa dizer de seus personagens.
O Segredo de Pântano pode não ser um dos maiores Renoir,
mas é um ótimo filme, singelo e verdadeiramente poético. Servindo muito bem
como uma introdução do diretor em terras americanas, inserindo-se até mesmo
muito bem, muitos dizem que é por conta do roteiro de Dudley Nichols, um grande
roteirista de Hollywood, mas devo dizer que é muito mais por conta da liberdade
criativa com que Renoir pôde expor esse enredo que qualquer outra coisa.
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