sábado, 16 de dezembro de 2017

1941 – O Segredo do Pântano (Jean Renoir, EUA & França) **** (4.0)

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Esse foi o primeiro filme de Renoir nos EUA, tentando realmente se integrar ao cenário novo. Diferente do resultado de Essa Terra é Minha, conseguiu explorar melhor suas habilidades num ambiente rural e cercado por natureza. Por mais que se perceba algumas dificuldades na adaptação ao ambiente novo, narrando a história de Ben, um jovem caçador que, ao perder o seu cão no Pântano de Okefenokee, encontra um foragido e desenvolve uma grande amizade.
            
Em termos técnicos o filme é um deleite visual, retirando algumas cenas que são gravadas em estúdio com uma trucagem extremamente mal realizada, talvez seja pela falta de uso do diretor francês. Porém, com a possibilidade de gravar num pântano real, proporcionou uma ambientação espetacular, o movimento da água que inunda a região é de uma força natural muito bela. Consegue muito bem expressar de maneira simples a relação dos dois personagens que se encontram e findam uma amizade. Keefer foi acusado por um crime que não cometeu e vive como um homem das cavernas, caçando com pequenas facas, sobrevivendo. A relação dos dois sujeitos é de completo aprisionamento, o aspecto da locação constrói todo esse sentimento de enclausuramento deste personagem que está há anos sem ver a filha, pois se voltar à cidade será condenado a morte.

Já Ben vive em outro tipo de prisão, uma prisão de costumes, sempre considerado como alguém não tão competente como outros caçadores, assim como preso à uma mulher que busca sua atenção ao casamento o tempo todo. A maneira que Renoir usa do movimento de câmera é exemplar, conseguindo passear de maneira fluída pelo emaranhado de folhas. Além de que obviamente, neste filme americano, encontra-se um dos símbolos mais importantes da filmografia do diretor, apesar de não ser exatamente um rio, mas a água que inunda o pântano tem o mesmo potencial de mudança, de convulsão da vida e de movimento inexorável.
            
Trabalhar no interior dos Estados Unidos tornou Renoir muito confortável com seus personagens humildes. Conseguiu trazer o frescor humanista do realismo poético. A jornada de Ben, que procura ajudar a filha de Keefer, assim como a ajuda-lo, transformam sua vida, sua perspectiva de aprisionamento. Dessa forma, ele escapa das leis e dos costumes locais para buscar uma vida mais própria, como gostaria que fosse. A figura do excluído se encontra em Keefer, aquele que foi obrigado a fugir da sociedade. Mas diferente de outros personagens do diretor, ele, por mais que contenha um pessimismo em relação à sociedade na qual vive, ainda sonha em voltar para ela, muito por conta de sua filha. Os momentos finais do filme são um verdadeiro deleite visual para narrativa, a maneira com que os dois protagonistas conhecem o pântano e o utilizam para conseguir o que desejam é como se eles estivessem dominando, excedendo os limites impostos a eles. Enquanto outros personagens, se molham, sujam, se prendem e afundam no ambiente, se sufocam na própria prisão que desconhecem viver. É neste ponto que este filme é realmente uma obra de Renoir, no momento que diz com o seu movimento de câmera, com sua ambientação tudo que precisa dizer de seus personagens.
            
O Segredo de Pântano pode não ser um dos maiores Renoir, mas é um ótimo filme, singelo e verdadeiramente poético. Servindo muito bem como uma introdução do diretor em terras americanas, inserindo-se até mesmo muito bem, muitos dizem que é por conta do roteiro de Dudley Nichols, um grande roteirista de Hollywood, mas devo dizer que é muito mais por conta da liberdade criativa com que Renoir pôde expor esse enredo que qualquer outra coisa. 

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