Em sua tradução literal “O Doce do Diabo” é uma imersiva
e bem narrada história de terror, porém que não causa tanto medo, ou espanto.
De fato, parece usar muito mais dos signos do terror para construir um enredo
envolvente. Essa é a história da família Hellman (Byrne com certeza tem algum
senso de humor) que ao se mudarem para uma grande casa, onde duas pessoas
haviam sido assassinadas começam a passar por diversos problemas de relação
familiar.
Essa história já foi contada diversas vezes no cinema,
algum tipo de entidade se encontra na casa e então o pai se torna possuído,
culminando no assassinato da família e no suicídio do pai. Cabe salientar que
os personagens deste filme são mais bem trabalhados, além de trazer um enredo
um pouco menos clichê neste possível subgênero do horror, ou seria um fetiche?
Jesse, bem interpretado por Ethan Embry, é um pintor, viciado em metal, no qual
realiza obras intensas com um traçado grosso e carregado. Astrid, interpretada
de maneira singela por Shiri Appleby, parece sempre estar com um pé atrás de
tudo, tentando segurar as pontas do marido, um otimista nato. Já a filha deles,
Zooey, muito bem interpretada pela jovem Kiara Glasco, parece ser uma síntese
dos dois, sendo levemente rabugenta como a mãe, mas carregando o vício da
música e estilo Metal. O início dos problemas da família se dá com a inspiração
de Jesse, quando ele começa a escutar vozes em sua cabeça, então pinta de forma
raivosa e completamente sacralizada o que demandam, são crianças queimando no
inferno. Apesar da forte temática do quadro, a estética fortemente ligada ao
horror do Metal mascara a estranheza do quadro.
Byrne, realizando seu primeiro longa americano, consegue trazer
algo de seu estilo sem se perder. Em dois pontos principais, primeiro, a do
personagem de Ray, um dos antigos moradores da casa, também viciado em Metal,
que começa a tentar a se relacionar com a família para voltar a sua antiga
casa. Seu modo absurdo de agir, imprevisível e até certo ponto assustador
constroem uma figura antagônica que não é em sua forma horrenda, não é um
monstro, mas são as ações que denotam medo, sua inconsistência que causa o
medo. Além disso, existe uma sequência extremamente potente do longa, na qual,
o diretor, por meio de uma montagem rítmica e sincrônica, compara os movimentos
de Ray limpando sangue com um rodo numa banheira, enquanto Jesse pinta com as
cores vermelhas. Todo o torcer dos fios do pinceis são como o sangue que passa
a escorrer pelo ralo. A cor vermelha se torna grandiosa na paleta de cores, aos
poucos se torna ainda mais poderosa, surgindo no enquadramento em diversos
momentos importantes, por exemplo, em uma das bizarras visitas de Ray à casa é
possível vê-lo por uma pequena janela situada no centro da porta, janela esta
vermelha, que o transforma numa figura ainda mais intensa.
Os tons que misturam a insanidade dos personagens com o
inferno e sobrenatural são extremamente interessantes, pois criam uma conjunção
de incerteza sobre as ações de todos os lados. Se existe algo de frágil no
filme é não preservar essa conjunção, que tornam as respostas, que são
oferecidas, muito convenientes. De qualquer forma, à maneira com qual chegam-se
nela é bem realizado por atores competentes e um diretor que entende o
funcionamento da montagem.
Por fim, deve-se dizer que este longa mais uma vez coloca Sean Byrne como um dos bons realizadores de horror desta geração, aos poucos construindo sua estética. Numa época de filmes tão repetitivos e genéricos, alguém que produza algo um pouco diferente e bem realizado precisa de espaço
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