segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

2017 – Okja (Bong Jo-Hong, Coreia do Sul) **** (4.0)

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O inventivo diretor coreano Bong Jo-Hong realiza seu segundo “filme de monstro”, mesclando seu estilo de comédia, ação e de crítica social, lembrando até certo ponto os tempos áureos de Steven Spielberg. Um filme, que antes de ser sobre veganismo, é sobre as más condições das Indústria da Carne e até mesmo sobre egocentrismo da ciência. Narrando, portanto, a história de Mija, jovem garota que vive na região rural da Coreia do Sul, onde cuida, ao lado de seu avô, de um Super-Porco, criado artificialmente. Quando o animal é obrigado, por conta de acordo prévios, a ser levado para os EUA e consequentemente comido. A garota parte numa verdadeira jornada pela sua amizade mais verdadeira.
            
O primeiro ponto temático que deve ser exposto de maneira mais objetiva é que o filme não se propõe em momento nenhum a ser uma ode, ou uma propagação do ideal de veganismo. Por isso, qualquer tentativa de avalia-lo com este intuito será avaliar um filme que não existe. Sendo assim, o primeiro ato do filme é uma demonstração da relação intensa e cheia de carinho entre Mijo e Okja, por meio das florestas orientais. Os efeitos especiais mostram-se espetaculares, o animal com uma pele cheia de relevo, uma movimentação fluída e completamente condizente, além de conseguir fazer com que sua interação com os personagens seja realmente sentida, criando planos detalhe dos olhos, extremamente fortes. Um dos pontos mais importantes de construção de vínculos afetivos para os seres humanos se encontram nos olhos.  

A vida da garota e do animal se transtorna pelo fato, previamente apresentado, que os Super-Porcos foram distribuídos pelo mundo para quando tivessem grandes os suficientes fossem avaliados pela empresa criadora e por fim, o que estivesse com o melhor gosto seria o modelo, consequentemente seria comido. A questão maior que o diretor parece querer tratar é o poder do homem de ser perverso, pois comer carne não é verdadeiro problema ético e sim a brutalidade com que isso ocorre, a banalidade de retirar uma vida.
            
Dessa forma, na sua aventura por seu grande amigo, o diretor a conecta por dois grupos políticos no meio deste vínculo de amor. O primeiro, a empresa, que tem três personagens com mais presença, Lucy Mirando, interpretada por Tilda Swinton, a David Bowie do cinema, realizando a personagem cheia de trejeitos e vitalidade. Frank, realizado de maneira contida por Giancarlo Esposito, seu principal escudeiro e Johnny Wilcox, interpretado de maneira completamente alucinada por Jake Gyllenhal, em certos pontos sua caricatura é tão grande que destoa do universo do filme, este personagem é a figura de público da empresa, um cientista biólogo que analisa os animais, porém é um verdadeiro show man.

Do outro lado, o grupo revolucionário de libertação dos animais, suas figuras mais interessantes são Jay, líder do grupo, realizado por Paul Dano, com uma calma e até mesmo messianismo em sua voz, e K, realizado por Steven Yeun, o principal ponto de comunicação entre eles e Mijo. Dentro deste grupo o diretor apresenta diversas problemáticas da própria batalha ética que os seres humanos precisam passar. Um dos membros rejeita comer diversas coisas por seu ideal político, porém passa a sentir fome e para de funcionar comumente. Ou ainda, personagens que são como rebeldes sem causa, não estão no grupo pelo seu fim, mas pelos seus meios. Em torno dessas pequenas minúcias, o diretor de forma cômica apresenta os revolucionários, vestidos como terroristas, porém que não usam uma arma, eles utilizam objetos qualquer para não machucar ninguém. Num contexto atual, na qual, a violência e o terrorismo se alastram pelo mundo, ver algo dessa forma, não é só cômica como também acalenta o coração de uma maneira pouco vista no cinema atualmente.
           
Se existe algo que não funcione em Okja é que o mesmo perde um pouco de seu ritmo em sua parte final, tornando, assim seu desfecho menos envolvente que o desenrolar do filme. Mas as imagens de violência e a frieza com que os animais são mortos é extremamente impactante, além, é claro, das condições com que são tratados. Bong consegue compor suas cenas com diversos personagens, de maneira com que a câmera transite de forma plena, capturando pequenos planos-sequência que dão ainda mais fluidez ao longa, criando um aspecto de movimento inabalável. No meio deste aspecto caótico e político que o filme se reveste, o que mais culmina é o intenso amor entre Mijo e Okja. Deve-se parabenizar Seo-Hyun Ahn pela sua habilidade em transitar por entre tantos sentimentos durante o longa. Sem esta relação de amor, completamente empática, o filme, talvez não tivesse seu poder.
            
Antes de concluir, é necessário se comentar sobre a situação ocorrida no Festival de Cannes com o longa. Primeiro, houve certo desprezo por Almodóvar, presidente do júri neste ano, pelo filme, pois o mesmo era produzido pela Netflix, além disso, por um movimento dos cinemas, o Festival Cannes irá proibir em suas próximas edições a exibição de longas realizados por serviços de Streaming, já que existe todo um jogo econômico, que vai muito além das preocupações artísticas. Se não bastasse tudo isso, durante a projeção do filme houve uma falha de aspecto que prejudicou sua exibição e tornou tudo ainda mais problemático. Penso que a sala de cinema seja um ambiente-dispositivo, pois intensifica a experiência estética do espectador, entretanto, o filme possuí qualidades próprias e que podem ser experimentadas em outros ambientes. Com isto, devo dizer que não acho correto esse posicionamento dos artistas contra a Netflix, entretanto com a dificuldade de muitas salas de cinema ao redor do mundo de permanecerem vivas, fica o pensamento de que existe uma necessidade real de exclusividade dos Festivais para com filmes produzidos para salas de cinema. 
            
Voltando ao que realmente interessa, Okja é um filme extremamente divertido e belo. Seus personagens são cheios de vida, sua direção é precisa, apesar de certa pressa no seu fim. A imagem que permanece depois de visualizar toda a dor dos animais é, de fato, os belos momentos idílicos entre Mijo e seu melhor amigo Okja. 

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