
O inventivo diretor coreano
Bong Jo-Hong realiza seu segundo “filme de monstro”, mesclando seu estilo de
comédia, ação e de crítica social, lembrando até certo ponto os tempos áureos
de Steven Spielberg. Um filme, que antes de ser sobre veganismo, é sobre as más
condições das Indústria da Carne e até mesmo sobre egocentrismo da ciência.
Narrando, portanto, a história de Mija, jovem garota que vive na região rural
da Coreia do Sul, onde cuida, ao lado de seu avô, de um Super-Porco, criado
artificialmente. Quando o animal é obrigado, por conta de acordo prévios, a ser
levado para os EUA e consequentemente comido. A garota parte numa verdadeira
jornada pela sua amizade mais verdadeira.
O primeiro ponto temático que deve ser exposto de maneira
mais objetiva é que o filme não se propõe em momento nenhum a ser uma ode, ou
uma propagação do ideal de veganismo. Por isso, qualquer tentativa de avalia-lo
com este intuito será avaliar um filme que não existe. Sendo assim, o primeiro
ato do filme é uma demonstração da relação intensa e cheia de carinho entre
Mijo e Okja, por meio das florestas orientais. Os efeitos especiais mostram-se
espetaculares, o animal com uma pele cheia de relevo, uma movimentação fluída e
completamente condizente, além de conseguir fazer com que sua interação com os
personagens seja realmente sentida, criando planos detalhe dos olhos,
extremamente fortes. Um dos pontos mais importantes de construção de vínculos
afetivos para os seres humanos se encontram nos olhos.
A vida
da garota e do animal se transtorna pelo fato, previamente apresentado, que os
Super-Porcos foram distribuídos pelo mundo para quando tivessem grandes os
suficientes fossem avaliados pela empresa criadora e por fim, o que estivesse
com o melhor gosto seria o modelo, consequentemente seria comido. A questão
maior que o diretor parece querer tratar é o poder do homem de ser perverso,
pois comer carne não é verdadeiro problema ético e sim a brutalidade com que
isso ocorre, a banalidade de retirar uma vida.
Dessa forma, na sua aventura por seu grande amigo, o
diretor a conecta por dois grupos políticos no meio deste vínculo de amor. O
primeiro, a empresa, que tem três personagens com mais presença, Lucy Mirando,
interpretada por Tilda Swinton, a David Bowie do cinema, realizando a
personagem cheia de trejeitos e vitalidade. Frank, realizado de maneira contida
por Giancarlo Esposito, seu principal escudeiro e Johnny Wilcox, interpretado
de maneira completamente alucinada por Jake Gyllenhal, em certos pontos sua
caricatura é tão grande que destoa do universo do filme, este personagem é a
figura de público da empresa, um cientista biólogo que analisa os animais, porém
é um verdadeiro show man.
Do
outro lado, o grupo revolucionário de libertação dos animais, suas figuras mais
interessantes são Jay, líder do grupo, realizado por Paul Dano, com uma calma e
até mesmo messianismo em sua voz, e K, realizado por Steven Yeun, o principal
ponto de comunicação entre eles e Mijo. Dentro deste grupo o diretor apresenta
diversas problemáticas da própria batalha ética que os seres humanos precisam
passar. Um dos membros rejeita comer diversas coisas por seu ideal político,
porém passa a sentir fome e para de funcionar comumente. Ou ainda, personagens
que são como rebeldes sem causa, não estão no grupo pelo seu fim, mas pelos
seus meios. Em torno dessas pequenas minúcias, o diretor de forma cômica
apresenta os revolucionários, vestidos como terroristas, porém que não usam uma
arma, eles utilizam objetos qualquer para não machucar ninguém. Num contexto
atual, na qual, a violência e o terrorismo se alastram pelo mundo, ver algo
dessa forma, não é só cômica como também acalenta o coração de uma maneira
pouco vista no cinema atualmente.
Se existe algo que não funcione em Okja é que o mesmo
perde um pouco de seu ritmo em sua parte final, tornando, assim seu desfecho menos
envolvente que o desenrolar do filme. Mas as imagens de violência e a frieza com
que os animais são mortos é extremamente impactante, além, é claro, das
condições com que são tratados. Bong consegue compor suas cenas com diversos
personagens, de maneira com que a câmera transite de forma plena, capturando
pequenos planos-sequência que dão ainda mais fluidez ao longa, criando um
aspecto de movimento inabalável. No meio deste aspecto caótico e político que o
filme se reveste, o que mais culmina é o intenso amor entre Mijo e Okja. Deve-se
parabenizar Seo-Hyun Ahn pela sua habilidade em transitar por entre tantos
sentimentos durante o longa. Sem esta relação de amor, completamente empática,
o filme, talvez não tivesse seu poder.
Antes de concluir, é necessário se comentar sobre a
situação ocorrida no Festival de Cannes com o longa. Primeiro, houve certo
desprezo por Almodóvar, presidente do júri neste ano, pelo filme, pois o mesmo
era produzido pela Netflix, além disso, por um movimento dos cinemas, o Festival
Cannes irá proibir em suas próximas edições a exibição de longas realizados por
serviços de Streaming, já que existe todo um jogo econômico, que vai muito além
das preocupações artísticas. Se não bastasse tudo isso, durante a projeção do
filme houve uma falha de aspecto que prejudicou sua exibição e tornou tudo
ainda mais problemático. Penso que a sala de cinema seja um
ambiente-dispositivo, pois intensifica a experiência estética do espectador,
entretanto, o filme possuí qualidades próprias e que podem ser experimentadas
em outros ambientes. Com isto, devo dizer que não acho correto esse
posicionamento dos artistas contra a Netflix, entretanto com a dificuldade de
muitas salas de cinema ao redor do mundo de permanecerem vivas, fica o
pensamento de que existe uma necessidade real de exclusividade dos Festivais
para com filmes produzidos para salas de cinema.
Voltando ao que realmente interessa, Okja é um filme
extremamente divertido e belo. Seus personagens são cheios de vida, sua direção
é precisa, apesar de certa pressa no seu fim. A imagem que permanece depois de
visualizar toda a dor dos animais é, de fato, os belos momentos idílicos entre
Mijo e seu melhor amigo Okja.
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