
Realmente, parece ser fidedigno quando buscam semelhanças
entre a ação e o musical. Johnnie To extremamente reconhecido por seus filmes
de ação, sendo um verdadeiro personagem histórico da ascensão do cinema de Hong
Kong nos anos oitenta, surge aqui com um musical. Escritório conta a história
de dois novatos na grandiosa empresa Jones & Sunn, Lee Xiang, advindo de
uma família pobre, que a todo momento busca agradar os seus superiores e Kat,
uma jovem que não se revela.
Emulando de certa forma Playtime de Jacques Tati, com a
grandiloquência do cenário, uma empresa formada por canos minimalistas. As
paredes não existem de fato, todos espaços são visíveis. Neste ambiente
completamente teatral, o diretor produz uma potência na falsidade daquele
mundo, na própria efemeridade do ambiente, no qual seus personagens trabalham.
Pode-se até mesmo fazer uma comparação à Dogville de Lars Von Trier, já que não
existe real distinção entre os ambientes, todos se compõem em uma única visão.
Mas ainda assim existe uma montagem que qualifica essa obra como cinema e não
como um teatro filmado. Esta ambientação é mais propícia ao estilo do musical,
sem contar seu aspecto inautêntico que a torna quase uma elaboração de Kafka.
Por
mais que isso seja verdade, To produz ao invés de performances e danças
extremamente coreografadas, ou ainda, movimentos contagiantes, traça um
contínuo de estranheza entre o cinzento visual e o divertimento das canções.
Trabalhando pouco a pouco seus personagens como Lee Xiang com as canções
sonhadoras, o jovem que almeja algo dentro do sistema capitalista. Mas seus
personagens mais interessantes de fato são outros funcionários, como a relação
conturbada de Sophie e David, mas principalmente a melancolia da CEO Winnie
Chang, com seus conturbados e frívolos relacionamentos. Divertido, também, é
ver o Chow Yun-Fat num papel mais recluso, porém não menos importante como o
dono da empresa Ho.
Como havia dito, apesar de praticamente não existir as
danças e números performáticos, a habilidade com o cinema de ação do diretor faz com que saiba impor um ritmo extremamente cativante. O poder do cinema de
ação está no ritmo, no intervalo entre uma ação e outra, no movimento preciso
de câmera. Nos musicais é exatamente isso que estruturalmente constrói o ritmo.
Além disso, as canções, por mais que haja certo estranhamento com o idioma para
os ocidentais, são muito boas, tanto melodicamente quanto em conteúdo. São
realmente necessárias para tornarem o sofrimento dos personagens visíveis.
Outra proposta técnica de To é o uso do CGI em algumas cenas, ainda mais quando
resolveu trabalhar com 3D. Em diversos momentos soa estranho, existe uma cena
em especifica num carro que os efeitos são precários, porém como o efeito do
falso permeia todo o filme não chega a ser algo que prejudique e nem retire o
espectador de sua relação com o longa, com seu tom que não permite que haja uma
total imersão, se colocando em inspiração do distanciamento de Bretch. O que há
neste longa de mais poderoso é sua estética, a composição visual, seu conteúdo
explicitamente crítico e triste, aliado de um ritmo estrondoso e com seu tom
tragicômico, essa conjunção de tensões são o que a constitui como uma obra do
diretor.
Sim, não é um dos filmes mais marcantes de um diretor com
uma carreira gigantesca, cheia de grandes filmes de ação. Mas é um movimento
interessantíssimo de se observar ao fazer este musical (o diretor também já fez
comédias), um filme com ótimas atuações, um enredo razoável, porém crítico, com
pequenas performances, mas músicas belíssimas e por fim, um visual espetacular.
Nenhum comentário:
Postar um comentário