
Videodrome, ao lado de A Mosca, é o
ápice da mistura entre mente e corpo que o diretor canadense produz. Tudo que
acontece à mente se expressa no corpo. Dessa forma, o filme narra a história de
Max Renn, o produtor de uma pequena emissora de TV que exibe o que ninguém
quer, para saciar os desejos incontroláveis do ser humano, soft porn, filmes
com certa violência, etc. Entretanto, começa a captar um sinal com a ajuda de
um técnico, que exibia cenas assustadoras de um tortura, de forma praticamente
ininterrupta. Acreditando ser a nova tendência de mercado dos desejos obscuros
dos seres humanos, se aprofunda em demasiado no canal, o nome deste canal era
Videodrome.
Apesar de ser um filme curto é um
filme com diversas implicações, pela quantidade de comentários sobre os seres
humanos e os objetos artificias que criamos para nos acoplarmos, ou seja, para
criar extensões do corpo. Ao apresentar seu enredo e o jogo mercadológico da
emissora de Max, que pouco se importa com o que de fato é assistido e sim
apenas com a quantidade de espectadores é capaz de fisgar, já se faz um
comentário poderoso sobre a relação da TV e o Capitalismo. Primeiro, em relação
a potência que os dois têm de criar o desejo no ser humano, movendo o seu
imaginário com iscas de peixes, o segundo é o como o desejo transforma o corpo
e a mente do ser. Ainda mais interessante é a relação atual que esse canal,
Videodrome, tem com as mais bizarras páginas da Deepweb, atestando que as
coisas não mudaram, apenas se tornaram mais sofisticadas, novas máquinas se
acoplam, assim como a frase de um especialista que surge anunciando que todos
irão um dia ter um nome televisivo, ou como conhecemos, hoje, o “username” da
internet. Como o filme se passa nos anos 80 o horror sobre o virtual e a
potência das imagens desenfreadas se concentravam na TV, dessa forma, uma frase
se repete durante o filme, por diversos personagens “A tela da TV é a nova
retina dos olhos humanos”, ou seja, se a tela é a retina o que está do outro
lado é tão real quanto a própria realidade. Dito isto, quando Max começa a
ficar viciado pelo Videodrome, principalmente ao assisti-lo ao lado de sua
amante Nicki, que se excita tremendamente com as cenas de torturas, tentando
até mesmo recriar as torturas ao lado de seu companheiro, ele começa a
alucinar, ou será que atingiu uma nova realidade ao qual não percebia antes?
Cronenberg constrói a loucura de seu
personagem de maneira corporal, como por exemplo o maquinário televisivo, com
seus nervos e veias expostos, seu plástico e metal contraindo, e sua tela se
projetando. A perfeita união entre a televisão e o ser, acontece na mistura
total entre as realidades que se projetam entre as retinas. É como um ato
sexual e o diretor impõe essa conotação ao próprio transe do personagem.
Criando um desenvolvimento completamente surreal, em que qualquer coisa é possível,
transformando os corpos em vídeos cassete, os pixels em relevos tão detalhados
que superam a visão usual, tudo é real, ao mesmo tempo que nada. O homem é o
verdadeiro bricoleur que se acopla a tudo, porém em Videodrome ele não consegue
mais variar, experimentar, vivenciar as coisas, o fluxo do desejo (antes que
poderia passear pelos canais, ou pelas possiblidades, pois como o próprio
Deleuze afirma o desejo não tem objeto físico, menos ainda representativo) é
capturado e se torna estático. Como a arma, ou talvez a violência, que se
encarna com seus canos perfurantes pelo corpo e constrói um novo órgão vital e
possivelmente venenoso. Ainda existe um comentário sobre o poder de controle da
TV, já que Max é manipulado por fitas cassetes, seu corpo se organiza a partir
de ordens e comandos de outros, nunca podendo ser ele mesmo.
Dessa forma, todos os grandiosos
comentários sobre nossa sociedade e a maneira que ela se relaciona com os
objetos (no caso do filme, tecnológicos) perpassa pelo principal tema de
Cronenberg, além de estruturar sua filmografia com a relação indissociável da
mente e do corpo, seu impulso motor sempre é o desejo. Percebe-se o poder que
um desejo pode ter, a maneira que ele pode levar o ser humano, ou melhor, é a
única coisa que faz o ser humano agir com potencialidade, ou seja, exercer o
que está em potência. O desejo incide sempre sobre o real, o desejo move a
potência de agir do sujeito, se age por desejo e não por uma vontade, pois de
acordo com Spinoza, o desejo afeta a mente e o corpo, enquanto a vontade surge
apenas da mente. Concluindo assim que Max produz desejo, porém o enquadra, o
contamina com o desejo do outro, deixa de ser livre. O quanto somos livres? O quanto deixamos nossos
desejos serem capturados? Como funciona nosso fluxo? São perguntas que se
abstraem de uma conexão profunda que Videodrome tem com a filosofia de Gilles
Deleuze e suas incursões sobre o corpo e o desejo.
Portanto, Videodrome é um filme
sensacional que se aprofunda no desejo e na tecnologia, toda sua relação
surreal e essencial com o ser humano. Podendo não só ser um filme tenso e
grotesco, mas alcançando conceitos poderosos sobre toda a humanidade e uma conexão
ainda maior com os tempos atuais do início do Século XXI.
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