segunda-feira, 10 de julho de 2017

1983 – Videodrome (David Cronenberg, Canadá) ***** (5)

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Videodrome, ao lado de A Mosca, é o ápice da mistura entre mente e corpo que o diretor canadense produz. Tudo que acontece à mente se expressa no corpo. Dessa forma, o filme narra a história de Max Renn, o produtor de uma pequena emissora de TV que exibe o que ninguém quer, para saciar os desejos incontroláveis do ser humano, soft porn, filmes com certa violência, etc. Entretanto, começa a captar um sinal com a ajuda de um técnico, que exibia cenas assustadoras de um tortura, de forma praticamente ininterrupta. Acreditando ser a nova tendência de mercado dos desejos obscuros dos seres humanos, se aprofunda em demasiado no canal, o nome deste canal era Videodrome.
            
Apesar de ser um filme curto é um filme com diversas implicações, pela quantidade de comentários sobre os seres humanos e os objetos artificias que criamos para nos acoplarmos, ou seja, para criar extensões do corpo. Ao apresentar seu enredo e o jogo mercadológico da emissora de Max, que pouco se importa com o que de fato é assistido e sim apenas com a quantidade de espectadores é capaz de fisgar, já se faz um comentário poderoso sobre a relação da TV e o Capitalismo. Primeiro, em relação a potência que os dois têm de criar o desejo no ser humano, movendo o seu imaginário com iscas de peixes, o segundo é o como o desejo transforma o corpo e a mente do ser. Ainda mais interessante é a relação atual que esse canal, Videodrome, tem com as mais bizarras páginas da Deepweb, atestando que as coisas não mudaram, apenas se tornaram mais sofisticadas, novas máquinas se acoplam, assim como a frase de um especialista que surge anunciando que todos irão um dia ter um nome televisivo, ou como conhecemos, hoje, o “username” da internet. Como o filme se passa nos anos 80 o horror sobre o virtual e a potência das imagens desenfreadas se concentravam na TV, dessa forma, uma frase se repete durante o filme, por diversos personagens “A tela da TV é a nova retina dos olhos humanos”, ou seja, se a tela é a retina o que está do outro lado é tão real quanto a própria realidade. Dito isto, quando Max começa a ficar viciado pelo Videodrome, principalmente ao assisti-lo ao lado de sua amante Nicki, que se excita tremendamente com as cenas de torturas, tentando até mesmo recriar as torturas ao lado de seu companheiro, ele começa a alucinar, ou será que atingiu uma nova realidade ao qual não percebia antes?
            
Cronenberg constrói a loucura de seu personagem de maneira corporal, como por exemplo o maquinário televisivo, com seus nervos e veias expostos, seu plástico e metal contraindo, e sua tela se projetando. A perfeita união entre a televisão e o ser, acontece na mistura total entre as realidades que se projetam entre as retinas. É como um ato sexual e o diretor impõe essa conotação ao próprio transe do personagem. Criando um desenvolvimento completamente surreal, em que qualquer coisa é possível, transformando os corpos em vídeos cassete, os pixels em relevos tão detalhados que superam a visão usual, tudo é real, ao mesmo tempo que nada. O homem é o verdadeiro bricoleur que se acopla a tudo, porém em Videodrome ele não consegue mais variar, experimentar, vivenciar as coisas, o fluxo do desejo (antes que poderia passear pelos canais, ou pelas possiblidades, pois como o próprio Deleuze afirma o desejo não tem objeto físico, menos ainda representativo) é capturado e se torna estático. Como a arma, ou talvez a violência, que se encarna com seus canos perfurantes pelo corpo e constrói um novo órgão vital e possivelmente venenoso. Ainda existe um comentário sobre o poder de controle da TV, já que Max é manipulado por fitas cassetes, seu corpo se organiza a partir de ordens e comandos de outros, nunca podendo ser ele mesmo.
            
Dessa forma, todos os grandiosos comentários sobre nossa sociedade e a maneira que ela se relaciona com os objetos (no caso do filme, tecnológicos) perpassa pelo principal tema de Cronenberg, além de estruturar sua filmografia com a relação indissociável da mente e do corpo, seu impulso motor sempre é o desejo. Percebe-se o poder que um desejo pode ter, a maneira que ele pode levar o ser humano, ou melhor, é a única coisa que faz o ser humano agir com potencialidade, ou seja, exercer o que está em potência. O desejo incide sempre sobre o real, o desejo move a potência de agir do sujeito, se age por desejo e não por uma vontade, pois de acordo com Spinoza, o desejo afeta a mente e o corpo, enquanto a vontade surge apenas da mente. Concluindo assim que Max produz desejo, porém o enquadra, o contamina com o desejo do outro, deixa de ser livre. O quanto somos livres? O quanto deixamos nossos desejos serem capturados? Como funciona nosso fluxo? São perguntas que se abstraem de uma conexão profunda que Videodrome tem com a filosofia de Gilles Deleuze e suas incursões sobre o corpo e o desejo.
            
Portanto, Videodrome é um filme sensacional que se aprofunda no desejo e na tecnologia, toda sua relação surreal e essencial com o ser humano. Podendo não só ser um filme tenso e grotesco, mas alcançando conceitos poderosos sobre toda a humanidade e uma conexão ainda maior com os tempos atuais do início do Século XXI.

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