quinta-feira, 20 de julho de 2017

2011 – O Dia em Que Ele Chegar (Hong Sang-Soo, Coreia do Sul) ***** (5)


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Se Hong Sang-Soo tem uma obra-prima, pode-se dizer que O Dia em Que Ele Chegar é ela. A sensação de eterno retorno dos encontros mundanos e significativos da vida se erige sobre o preto e branco. Expressando mais uma vez a repetição, a estrutura em rizoma que percorre nas vidas. Em seu cinema tudo se faz visível, o imaginário, o sonho, o real, a percepção, porém são indiscerníveis. Neste longa conta a história de Sung-Joon, um ex-diretor de cinema, que volta a Seul depois de anos no campo.
            
A estrutura da repetição se propaga neste filme de maneira sútil e bela, primeiro, o espectador é introduzido à história de Sung-Joon que ao não encontrar, como combinado, com seu amigo, encontra consequentemente uma atriz que trabalhou com ele e, logo depois, com estudantes de cinema que o conhecem. Encontros no quais bebeu e por fim resolveu visitar a mulher por quem sempre foi apaixonado. Só para no fim perceber que não tem como os dois ficarem juntos. Mas então, no segundo dia, tudo parece começar novamente, só que dessa encontra-se com seu amigo, mas também com a atriz, foge de alguns alunos e resolve jantar num bar chamado “Romance”. Algo que se repete em mais dois momentos. Os personagens vestem as mesmas roupas, algumas ações são exatamente iguais, alguns diálogos também, apenas invertendo alguns papéis. O que o diretor procurou expressar nesse bar se torna claro quando o nomeia como o universo ficcional, o universo em que tudo que está em potência coexiste de maneira visível. Este é um dos motivos de comparar Hong Sang-Soo a uma tradição de pintores como Vermeer, Coubert e Cezanne, todos pintam situações mundanas, simples e até repetitivas com uma iluminação estrondosa em que nada se esconde, não existe sensação de mistério em seus quadros, assim como no diretor coreano que conta e reconta as mesmas histórias, em que tudo é extremamente iluminado, não só o quadro em si, mas os sonhos sãos revelados, as percepções diferentes dos personagens, os desejos, todos eles se tornam visíveis sob a luz. Portanto, Hong Sang-Soo usa do campo da ficção para discutir tudo que está em potência no ser humano.
            
Neste filme, seus personagens são agradáveis e se torna divertido acompanhar os diálogos que eles têm, assim como é impressionante a naturalidade das atuações deles, carregando uma espontaneidade gigantesca. Alguns momentos em especifico que se repetem vão elaborando as propostas do diretor, como por exemplo, a dona do bar ter uma aparência semelhante à da mulher por quem o protagonista sempre foi apaixonado, talvez este amor por ela que constrói essa estrutura ficcional enigmática que se repete. Até porque a relação que os dois concebem nas repetições parece ser de algum tempo atrás, como se conhecessem, ao mesmo tempo que alguns momentos parecem nunca ter se visto. Outro momento interessante é quando eles dialogam sobre o destino, eles comentam que esbarraram com três conhecidos num dia só, o protagonista encarnando as propostas filosóficas do diretor diz que diversos encontros na vida são sem razão alguma, a razão é uma pontuação que o ser humano faz no fluxo de momentos da vida, para tentar criar sentido e significado. Explicitando ainda que dentro de uma ação consciente existem inúmeros processos sem sentido algum (coincidências?) que também produzem tal ação, dessa forma afirmando certa irracionalidade que perpassa pelas escolhas e caminhos humanos, algo como forças mecânicas que que nos empurram de um lado para o outro.
            
Ainda existe um belo uso da fotografia em conjunto de uma Seul fria e nevando, algo que produz uma atmosfera extremamente intimista ao filme. Fazendo com que o espectador se aproxime das situações, buscando talvez calor, assim como os personagens que a cada repetição parecem beber mais e mais. É impossível distinguir se alguma das situações ocorreu ou não, se alguma delas foi desejada, mas uma coisa é certa, Hong Sang-Soo conseguiu produzir um filme que tem a mesma complexidade de uma pessoa, com suas inúmeras realizações em potência. Se em todos os seus filmes sobre diretores afirmava isso de maneira clara, aqui o realiza com precisão, sutileza e com um gosto agridoce.
           
Portanto, O Dia Em Que Ele Chegar é um dos melhores filmes que o diretor coreano já fez, fazendo emergir a complexidade das escolhas humanas, num filme simples e poderoso. 

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