
Se
Hong Sang-Soo tem uma obra-prima, pode-se dizer que O Dia em Que Ele Chegar é
ela. A sensação de eterno retorno dos encontros mundanos e significativos da
vida se erige sobre o preto e branco. Expressando mais uma vez a repetição, a
estrutura em rizoma que percorre nas vidas. Em seu cinema tudo se faz visível,
o imaginário, o sonho, o real, a percepção, porém são indiscerníveis. Neste
longa conta a história de Sung-Joon, um ex-diretor de cinema, que volta a Seul
depois de anos no campo.
A estrutura da repetição se propaga
neste filme de maneira sútil e bela, primeiro, o espectador é introduzido à
história de Sung-Joon que ao não encontrar, como combinado, com seu amigo,
encontra consequentemente uma atriz que trabalhou com ele e, logo depois, com
estudantes de cinema que o conhecem. Encontros no quais bebeu e por fim
resolveu visitar a mulher por quem sempre foi apaixonado. Só para no fim
perceber que não tem como os dois ficarem juntos. Mas então, no segundo dia,
tudo parece começar novamente, só que dessa encontra-se com seu amigo, mas
também com a atriz, foge de alguns alunos e resolve jantar num bar chamado
“Romance”. Algo que se repete em mais dois momentos. Os personagens vestem as
mesmas roupas, algumas ações são exatamente iguais, alguns diálogos também,
apenas invertendo alguns papéis. O que o diretor procurou expressar nesse bar
se torna claro quando o nomeia como o universo ficcional, o universo em que
tudo que está em potência coexiste de maneira visível. Este é um dos motivos de
comparar Hong Sang-Soo a uma tradição de pintores como Vermeer, Coubert e
Cezanne, todos pintam situações mundanas, simples e até repetitivas com uma
iluminação estrondosa em que nada se esconde, não existe sensação de mistério
em seus quadros, assim como no diretor coreano que conta e reconta as mesmas
histórias, em que tudo é extremamente iluminado, não só o quadro em si, mas os
sonhos sãos revelados, as percepções diferentes dos personagens, os desejos,
todos eles se tornam visíveis sob a luz. Portanto, Hong Sang-Soo usa do campo
da ficção para discutir tudo que está em potência no ser humano.
Neste filme, seus personagens são
agradáveis e se torna divertido acompanhar os diálogos que eles têm, assim como
é impressionante a naturalidade das atuações deles, carregando uma
espontaneidade gigantesca. Alguns momentos em especifico que se repetem vão
elaborando as propostas do diretor, como por exemplo, a dona do bar ter uma
aparência semelhante à da mulher por quem o protagonista sempre foi apaixonado,
talvez este amor por ela que constrói essa estrutura ficcional enigmática que
se repete. Até porque a relação que os dois concebem nas repetições parece ser
de algum tempo atrás, como se conhecessem, ao mesmo tempo que alguns momentos
parecem nunca ter se visto. Outro momento interessante é quando eles dialogam
sobre o destino, eles comentam que esbarraram com três conhecidos num dia só, o
protagonista encarnando as propostas filosóficas do diretor diz que diversos encontros
na vida são sem razão alguma, a razão é uma pontuação que o ser humano faz no
fluxo de momentos da vida, para tentar criar sentido e significado.
Explicitando ainda que dentro de uma ação consciente existem inúmeros processos
sem sentido algum (coincidências?) que também produzem tal ação, dessa forma afirmando
certa irracionalidade que perpassa pelas escolhas e caminhos humanos, algo como
forças mecânicas que que nos empurram de um lado para o outro.
Ainda existe um belo uso da
fotografia em conjunto de uma Seul fria e nevando, algo que produz uma
atmosfera extremamente intimista ao filme. Fazendo com que o espectador se
aproxime das situações, buscando talvez calor, assim como os personagens que a
cada repetição parecem beber mais e mais. É impossível distinguir se alguma das
situações ocorreu ou não, se alguma delas foi desejada, mas uma coisa é certa,
Hong Sang-Soo conseguiu produzir um filme que tem a mesma complexidade de uma
pessoa, com suas inúmeras realizações em potência. Se em todos os seus filmes
sobre diretores afirmava isso de maneira clara, aqui o realiza com precisão,
sutileza e com um gosto agridoce.
Portanto, O Dia Em Que Ele Chegar é
um dos melhores filmes que o diretor coreano já fez, fazendo emergir a
complexidade das escolhas humanas, num filme simples e poderoso.
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