sexta-feira, 14 de julho de 2017

2008 – Na Mira do Chefe (Martin McDonagh, Inglaterra) **** (4)

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O filme de estreia de Martin McDonagh é um verdadeiro misto de humor negro britânico e um drama sobre o medo da morte. Com atuações essências de Colin Farrel (Ray) cheio de expressões faciais exageradas e comentários absurdos, assim como a leveza e comicidade de Brendan Glesson (Ken) como seu companheiro. Os dois são assassinos que são mandados para Bugres, uma cidade turística da Bélgica, sem saber exatamente por qual motivo.
            
Assim o diretor anuncia seu enredo explicando que no último trabalho de Ray, ele acidentalmente matou uma criança. Seu medo ou talvez desejo de se matar é expresso por pequenos detalhes no decorrer do enredo, seja pela curiosidade infundada de que pessoas com nanismo têm mais propensão ao suicídio, com efeito perseguindo um anão que é ator pela cidade por tal característica, ou ainda quando tanto ele quanto Ken observam um quadro de Bosch, pré-surrealista da Idade Média, no qual representa por meio de figuras oníricas o que seria o inferno, ou purgatório, para quem já conhece a obra do pintor sabe que são figuras relativamente perturbadoras. Este quadro se encarna profundamente no protagonista que, em Bugres, busca o desejo da morte, ao passo que conhece uma mulher que pode mudar seus pensamentos. É interessante como os dois personagens principais se relacionam de maneira diferente com a cidade, enquanto Ken se apaixona pelos contos de fadas que a cidade tanto se assemelha, Ray odeia o lugar, apenas desejando voltar a Londres. O humor negro é pesado, muitas piadas são de puro mal gosto, mas entende-se facilmente que elas não são risíveis e sim transformam o personagem do Ray em um homem de certo odiável, sua displicência com sua vida e a com a vida dos outros se expressa em todas as suas palavras.
            
O filme ganha tons mais sérios quando o trabalho deles é revelado, construindo uma boa reviravolta, que apesar de um pouco óbvia por conta da tradução do título (seu título original seria Em Bugres) conseguiu mudar o curso do enredo, o tornando mais dramático, porém não menos cômico, cheio de acontecimentos e coincidências sarcásticas. A participação de Ralph Fiennes nos momentos finais é sensacional. Percebe-se claramente que o que move a história de fato não é o desejo, mas a honra, uma moral dos assassinos. Dessa forma, quando se chega próximo dos momentos finais, que em uma cena magistralmente compõe uma recriação dos quadros de Bosch, o que é real se dissipa e se torna o moral. Eles não enxergam a realidade, a deturpam, com pensamentos que transcendem as relações dos sujeitos, dos corpos. As últimas palavras ditas por Ray antes dos créditos finais demonstram um resultado belo e poderoso para a jornada cômica e quase surreal do filme.
            
McDonagh, em sua estreia, demonstra sua veia sarcástica extremamente britânica, criando drama, comédia, violência, tudo em só. Ainda conseguindo implodir uma veia sagrada com uma temática existencialista. 

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