
Bruno
Dumont parece ter aderido de vez a comédia após a minissérie para a TV
francesa, O Pequeno Quinquin, seu mais novo filme é uma comédia absurda e
surreal sobre uma família burguesa, nos anos de 1910, que vai passar um tempo
em sua casa de praia na Costa de Chanel, ao mesmo tempo alguns turistas vêm
desaparecendo e um mistério se alastra. Ainda podendo se comparar tematicamente
com Um Passeio no Campo de Jean Renoir, talvez sendo até mesmo uma sátira de
tal filme.
Se atendo a questões técnicas a
locação e a fotografia são estupendas, os cenários praianos, porém frios, os
rios que enchem e secam o tempo todo, em contraste das cores fortes e saturadas
criam um efeito impressionante, sempre procurando um ângulo em que o céu sobre
a cabeça dos personagens pareça gigante e extremamente azul, quase como um
fundo eterno do filme, o azul, que está no mar, no rio, nas roupas dos
personagens e no céu resplendente. Por vezes, a maneira que Dumont conduz sua
câmera pelo ambiente lembra certo ascetismo e paixão pela natureza que existia
em Bresson, mas pela loucura desenfreada de seus personagens e a estranha
comédia percebemos que só a condução se aproxima ao estilo Bressioniano. A
escolha por introduzir os personagens burgueses como extravagantes,
completamente caricatos ao passo que os catadores de mexilhões, os
trabalhadores da região são silenciosos, só falam o necessário, não se enchem
de palavras na boca para não engasgar, estranhamente às vezes se expressam com
grunhidos. A comédia toda no filme é feita pela extravagância dos burgueses,
que se impressionam com o belo cenário, ao mesmo tempo que não o aproveitam,
Isabelle só se importa em fazer as refeições, André com sua casa, parece que a
carrega nas costas, em sua falsa corcunda, a sua irmã que chega no meio do
longa, Aude, grita como o pássaro que veste em seu chapéu, completamente
irritante. Os personagens que mais interessam no longa acabam por ser os dois
detetives, de forma estereotipada, um gordo (porém, extremamente gordo, em que
as piadas visuais se tornam repetitivas) e um magro (que parece mais sensato,
mas não tem personalidade alguma), e ainda o jovem catador de mexilhão Ma Loute
(que dá o nome ao filme em seu título original).
Todo o enredo gira, de fato, em
torno do relacionamento que Billie, personagem que tem o gênero fluído, por
vezes veste-se de menino, por vezes de menina, ou simplesmente goste de fazer
tal coisa e Ma Loute. Eles não falam um com outro, se comunicam com o corpo e
formam um casal que assusta todos os dois lados. Os assassinatos são logo
revelados, tentando fazer algo como uma crítica social, porém não se investe
nesse ponto em nenhum momento do filme, os assassinatos são só parte do
cenário, do contexto. Dumont ainda cria uma relação dos personagens com a
religião bizarra, que afeta a narrativa de uma maneira crucial, como se
milagres começassem a acontecer, mas percebe-se que eles estão intimamente
ligados aos burgueses que não agem, só falam, enquanto os trabalhadores fazem,
mas não falam uma palavra. O seu tom cômico acaba por ser pelos trejeitos e
frases nonsense de seus personagens, suas falhas de comunicação, por isso em
muitos momentos fica difícil saber se existe um tom cômico em uma cena ou não,
como por exemplo em uma cena existe certo olhar transfobico que ronda os
personagens, mas pela maneira que as cenas são retratadas não existe uma
imposição conceitual do diretor sobre a temática. A última cartada do diretor é
produzir uma referência à 8 ½ de Fellini, que sim, é extravagante, mas ainda
assim muito mais sutil e poderoso que este filme, a referência surgiu de forma
pouco afetiva, parecendo ser usado apenas pelo humor.
Dumont pouco faz sentido em seu
humor negro, ao mesmo tempo que pouco afeta em suas críticas sociais explícitas
e um pouco jogadas. Porém, sua condução narrativa e em certos momentos a comicidade
nonsense conseguem criar um filme bem-humorado e divertido.
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