
Nossa
Sunhi surge, assim como A Visitante Francesa, um filme mais sucinto de Hong
Sang-Soo que conduzia seus personagens por questões filosóficas relacionados a
uma ética, agora parece se interessar ainda mais pelo vagar errôneo dos mesmos.
Tendo Sunhi como uma protagonista que retorna à universidade em busca de uma
mudança em sua vida, consequentemente, ela não poderia fazer tal mudança sem
resolver questões do passado. Explorando muito bem as localidades e a
disposição dos personagens em volta de sua protagonista.
O circuito promovido entre os
personagens é cômico, a volta à sua faculdade em busca de seu professor foi
realizada para que este produzisse uma recomendação sua para uma faculdade no
Canadá, porém acaba por encontrar com seu ex-namorada que ainda permanece
completamente apaixonado por ela e por fim, por um colega mais velho que, hoje,
se tornou professor. Durante todo o filme os quatro personagens se encontram em
bares, lanchonetes, faculdade e até mesmo por telefone, a princípio de forma
separada, sempre em duplas, criando uma interessante noção de conhecer um
sujeito a partir das suas múltiplas relações com o outro. É interessante ver
como os personagens dialogam e como isso vai alterando a maneira que cada um se
relaciona com o próximo, o fluxo do desejo de cada um se altera e modifica, o
professor tenta ser profissional e depois se torna livre de restrições, mas foi
um ato verdadeiro ou falso? Quem sabe dizer, talvez apaixonado. Todos eles são
movidos por seus desejos e pela luta incessante com o desejo do outro.
Um dos temas mais recorrente nos
filmes de Hong Sang-Soo é reencontro com o passado, a placenta inevitável do
agora, afinal, não somos memória e desejo? Sunhi retorna para sua antiga cidade,
para buscar um futuro melhor. Mas para conseguir avançar em sua vida precisa
enfrentar o que foi deixado para trás. Não é à toa que desenvolve um
relacionamento mais íntimo com o antigo colega, pois este, agora formado,
seguiu a carreira na área do cinema, como se houvesse saído da zona de conforto
das questões teóricas e havia se jogado de cabeça na prática da arte. Não só
isso, como também mantinha uma relação com sua esposa, no qual moravam
separados, parecia estar sempre buscado seus próprios desejos. Este mesmo personagens
repete incessantemente “explore seus limites, descubra-os”. Como se sua vida
fosse essa busca por experimentar-se.
Outro ponto que se tornou
característico neste e em alguns outros do diretor coreano é a visita à
monumentos e lugares históricos (para não dizer turísticos) pelos personagens.
Talvez a expressão visual mais forte dos personagens que não conseguem fugir de
seus passados, precisam revisita-lo, não conhecem a cidade por seus lugares do
agora, mas pela sua história. Por isso, o último plano de Nossa Sunhi é uma das
mais interessantes finalizações dos filmes do diretor, que de forma assertiva
indica que seus personagens se perderam no passado, enquanto sua protagonista
segue adiante, eles a chamam inutilmente num templo. Não só dessa forma o
diretor consegue usar o local para simbolizar ou expressar certa questão
subjetiva, mas também quando Sunhi faz a leitura da indicação do professor, nos
dois momentos em que isso ocorre, a paleta de cores do ambiente se mistura com
as cores da roupa dela, sugerindo que a expressão daquele ambiente é a da
personagem, como se estivesse em um momento interior de reflexão sobre si.
Nossa Sunhi se caracteriza como um
filme suave do diretor, com seu poder autoral em cada organização de cena, em
cada transição, em cada diálogo. Contando uma história simples, para explorar
de forma interessante e sempre divertida seus temas filosóficos sobre artistas
frustrados e desejo irrepreensíveis.
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