
Como você sabe de tudo surge um pouco mais explicito que as suas habituais comédias, primeiro por se inserir de forma precisa no lugar de diretor de cinema, segundo por intensificar as cenas de comédia com momentos lúdicos quase surreais. Porém, ainda temos artistas frustrados, traições e, com certeza, encontros bêbados. O novo filme de Hong Sang-Soo é sobre Goo, um diretor que faz filmes que ninguém compreende, mas os críticos amam (qualquer semelhança não é mera coincidência). Notoriamente dividido em duas partes, a primeira como júri de um Festival, que se desdobra num encontro com um antigo amigo e a segunda em uma palestra para alunos de cinema que gera um terceiro encontro, a com seu antigo professor e inspirador, o cinema que leva ao pessoal.
Como de usual, as paletas de cores
opacas em cenários pouco memoráveis, em sua simplicidade ao máximo e com
certeza na espontaneidade, Hong continua o mesmo. O espectador é imerso em
incursões, numa narração em off, do protagonista, produzindo comentários ácidos
sobre todos ao seu redor. Seja com o seu antigo amigo que agora está ganhando
uma retrospectiva, por mais que tenha poucos filmes, ou da atriz pornô que está
tentando ao máximo se inserir na indústria. Fazendo até mesmo uma bela relação com
um pequenino sapo que nada numa fonte, “o sapo não consegue lembrar de seus
dias de girino”, mas estaria falando do outro ou de si? Vamos percebendo o jogo
de amizades e o pouco profissionalismo que, de fato, ronda por alguns
festivais, ou até mesmo o descaso do júri sobre aos filmes que assiste.
O ápice da primeira parte ocorre ao se encontrar com um
antigo amigo no meio da rua, assim, vai à sua casa, bebe com ele e sua mulher.
É interessante notar como ele é julgado como um depravado por seus filmes pelo
casal, que parece ter uma áurea estranha, algo ascético, no discurso da esposa
do amigo dele, percebe-se, também, uma relação com o transcendente que acaba
por ser completamente paradoxal. Afirma, primeiramente, que deve fazer o que é mais
importante, após desistir da carreira de bailarina e, ainda assim, afirma que
deve conhecer a si mesmo, pois de forma divina o sujeito deve viver por si
mesmo. Dessa forma, parece existir uma dualidade aí, quem você é de verdade e o
que você faz como maneira de expressar isso (o que é importante a se fazer),
assim o Goo se mostra como um depravado e artístico em seus filmes, quando pode
ser considerado covarde e sem personalidade na vida real, aos poucos, a partir
de seus desejos mais obscuros ele se assemelha com sua persona cinematográfica.
Existe um comentário muito interessante ainda da mulher, “Somos feitos de Luz,
ninguém sabe como somos de verdade”, podendo surgir uma relação poderosa com o
fazer cinema e esse momento, quem são esses personagens na vida real? Bem se
sabe que o diretor (tanto o do filme, quanto o protagonista da história) faz
seus filmes a partir de sua experiência. Sim, aqueles personagens são puramente
luzes que expressam a realidade sem nunca serem o real, é um pequeno comentário
inserido, existe uma bela relação de Hong Sang-Soo e a iluminação, advinda de
Cezanne, Vermeer e Coubert, autores que pintam com a luz a natureza morta e
repetitiva da vida. O fim dessa primeira parte constrói um dos momentos mais
cômicos da filmografia do diretor, a fuga de uma lagarta.
A segunda parte é onde Hong Sang-Soo parece revelar o
segredo de sua filmografia, pode-se até dizer que esse filme surgiu a partir de
uma irritação pela não compreensão de seus filmes. Na palestra para os alunos
afirma, após questionado, que faz filmes por fazê-los, não se espera a chegar a
nenhum resultado, não espera imagens belas (apesar de encontrar algumas), não
espera o senso, ou melhor não procura, apenas remonta um emaranhado de
acontecimentos de sua própria vida e cria afeto nos encontros da montagem.
Ainda afirmando que a ideia livre se faz a partir do momento, sem ideias
preconcebidas e é por isso que faz filmes assim. Como a aluna diz “ Você não é
um cineasta, você é um filósofo”, Deleuze diria que ele é um cineasta que
produz com blocos de espaço-tempo, ou seja, em nada deve à filosofia, que
constrói conceitos puros. Dessa forma, Goo afirma-se na liberdade, a liberdade
é seu bem principal, porém ao se encontrar com antigo professor que diz que
tudo é importante, mas em especial a autenticidade, percebe-se o diretor
falhar, mudar seus discursos.
O último momento no filme acontece na casa do professor, em
que sua esposa era uma antiga namorada do protagonista. Obviamente algo vai dar
errado. Culminando no encontro de Goo com o mar, que de forma estranha, mas
espontânea corre sozinho, seguindo o rio seco até o mar, pois “precisava
lembrar do que havia se esquecido”. O mar é uma convulsão de movimentos, ondas,
correntezas, redemoinhos e tsunamis, é como o próprio viver humano, ele
precisava voltar-se para seu lado mais profundo. Nesse último momento, as complicações
são grandes, mas Hong finaliza o filme com um plano mais que precioso.
“Me prometa que não fará um filme sobre mim”, Hong Sang-Soo
brinca com o que é atual, o que é virtual, o que é vida, o que é filme, como se
mistura em movimentos ondulantes como o mar. Como Você Sabe de Tudo é um filme
crucial do diretor, expressando de forma explicita qual seu proposito no
cinema, ao passo que conta uma bela história sobre a vida de um homem que acha
que é livre e sabe de tudo, que aos poucos percebe o quão ignorante é.
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