quinta-feira, 6 de julho de 2017

2009 – Como Você Sabe de Tudo (Hong Sang-Soo, Coreia do Sul) ****1/2 (4.5)

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Como você sabe de tudo surge um pouco mais explicito que as suas habituais comédias, primeiro por se inserir de forma precisa no lugar de diretor de cinema, segundo por intensificar as cenas de comédia com momentos lúdicos quase surreais. Porém, ainda temos artistas frustrados, traições e, com certeza, encontros bêbados. O novo filme de Hong Sang-Soo é sobre Goo, um diretor que faz filmes que ninguém compreende, mas os críticos amam (qualquer semelhança não é mera coincidência). Notoriamente dividido em duas partes, a primeira como júri de um Festival, que se desdobra num encontro com um antigo amigo e a segunda em uma palestra para alunos de cinema que gera um terceiro encontro, a com seu antigo professor e inspirador, o cinema que leva ao pessoal.
            
Como de usual, as paletas de cores opacas em cenários pouco memoráveis, em sua simplicidade ao máximo e com certeza na espontaneidade, Hong continua o mesmo. O espectador é imerso em incursões, numa narração em off, do protagonista, produzindo comentários ácidos sobre todos ao seu redor. Seja com o seu antigo amigo que agora está ganhando uma retrospectiva, por mais que tenha poucos filmes, ou da atriz pornô que está tentando ao máximo se inserir na indústria. Fazendo até mesmo uma bela relação com um pequenino sapo que nada numa fonte, “o sapo não consegue lembrar de seus dias de girino”, mas estaria falando do outro ou de si? Vamos percebendo o jogo de amizades e o pouco profissionalismo que, de fato, ronda por alguns festivais, ou até mesmo o descaso do júri sobre aos filmes que assiste.

O ápice da primeira parte ocorre ao se encontrar com um antigo amigo no meio da rua, assim, vai à sua casa, bebe com ele e sua mulher. É interessante notar como ele é julgado como um depravado por seus filmes pelo casal, que parece ter uma áurea estranha, algo ascético, no discurso da esposa do amigo dele, percebe-se, também, uma relação com o transcendente que acaba por ser completamente paradoxal. Afirma, primeiramente, que deve fazer o que é mais importante, após desistir da carreira de bailarina e, ainda assim, afirma que deve conhecer a si mesmo, pois de forma divina o sujeito deve viver por si mesmo. Dessa forma, parece existir uma dualidade aí, quem você é de verdade e o que você faz como maneira de expressar isso (o que é importante a se fazer), assim o Goo se mostra como um depravado e artístico em seus filmes, quando pode ser considerado covarde e sem personalidade na vida real, aos poucos, a partir de seus desejos mais obscuros ele se assemelha com sua persona cinematográfica. Existe um comentário muito interessante ainda da mulher, “Somos feitos de Luz, ninguém sabe como somos de verdade”, podendo surgir uma relação poderosa com o fazer cinema e esse momento, quem são esses personagens na vida real? Bem se sabe que o diretor (tanto o do filme, quanto o protagonista da história) faz seus filmes a partir de sua experiência. Sim, aqueles personagens são puramente luzes que expressam a realidade sem nunca serem o real, é um pequeno comentário inserido, existe uma bela relação de Hong Sang-Soo e a iluminação, advinda de Cezanne, Vermeer e Coubert, autores que pintam com a luz a natureza morta e repetitiva da vida. O fim dessa primeira parte constrói um dos momentos mais cômicos da filmografia do diretor, a fuga de uma lagarta.

A segunda parte é onde Hong Sang-Soo parece revelar o segredo de sua filmografia, pode-se até dizer que esse filme surgiu a partir de uma irritação pela não compreensão de seus filmes. Na palestra para os alunos afirma, após questionado, que faz filmes por fazê-los, não se espera a chegar a nenhum resultado, não espera imagens belas (apesar de encontrar algumas), não espera o senso, ou melhor não procura, apenas remonta um emaranhado de acontecimentos de sua própria vida e cria afeto nos encontros da montagem. Ainda afirmando que a ideia livre se faz a partir do momento, sem ideias preconcebidas e é por isso que faz filmes assim. Como a aluna diz “ Você não é um cineasta, você é um filósofo”, Deleuze diria que ele é um cineasta que produz com blocos de espaço-tempo, ou seja, em nada deve à filosofia, que constrói conceitos puros. Dessa forma, Goo afirma-se na liberdade, a liberdade é seu bem principal, porém ao se encontrar com antigo professor que diz que tudo é importante, mas em especial a autenticidade, percebe-se o diretor falhar, mudar seus discursos.

O último momento no filme acontece na casa do professor, em que sua esposa era uma antiga namorada do protagonista. Obviamente algo vai dar errado. Culminando no encontro de Goo com o mar, que de forma estranha, mas espontânea corre sozinho, seguindo o rio seco até o mar, pois “precisava lembrar do que havia se esquecido”. O mar é uma convulsão de movimentos, ondas, correntezas, redemoinhos e tsunamis, é como o próprio viver humano, ele precisava voltar-se para seu lado mais profundo. Nesse último momento, as complicações são grandes, mas Hong finaliza o filme com um plano mais que precioso.

“Me prometa que não fará um filme sobre mim”, Hong Sang-Soo brinca com o que é atual, o que é virtual, o que é vida, o que é filme, como se mistura em movimentos ondulantes como o mar. Como Você Sabe de Tudo é um filme crucial do diretor, expressando de forma explicita qual seu proposito no cinema, ao passo que conta uma bela história sobre a vida de um homem que acha que é livre e sabe de tudo, que aos poucos percebe o quão ignorante é.

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