
O
mais novo filme de Shyamalan surgiu como um retorno às suas origens nos bons
suspenses (ao lado de A Visita), que de fato, nunca foram tão bons assim.
Fragmentado traz uma premissa muito interessante, mas ao se revestir pelos
diálogos pueris e pela abordagem heroica do diretor se torna fraco. Narrando a
história de Kevin e suas vinte e três personalidades ao sequestrarem três
jovens.
Esteticamente, a princípio, o filme
apresentava algo de interessante. O esconderijo do protagonista em seus tons
cinzas e beges criavam uma sensação de lugar qualquer e comum, assim como certo
minimalismo que perdurava nas cenas. Os canos e a maneira com qual o diretor
usava da pequena profundidade de campo, colocando o rosto dos personagens
extremamente em foco criavam uma boa sensação claustrofóbica. Entretanto, esses
são os únicos recursos que o diretor acaba por usar em todo decorrer do filme,
além da fantástica atuação de James McAvoy, que muda de forma impressionante
cada músculo de seu rosto para compor as diversas personas de Kevin, claro, que
as 23 personalidades não surgem durante o filme, pode-se dizer que pelo menos
cinco delas têm algum tempo de tela.
As outras atuações foram muito mal aproveitadas,
principalmente a da Ana Taylor-Joy, como uma das garotas sequestradas, que até
conseguiu construir uma boa personagem, mas que por conta das falhas de lógica
do roteiro se tornou extremamente frágil. Sua personagem é a mais aprofundada
das três sequestradas, a partir da inserção de flashbacks que a princípio
pareciam servir para mostrar que desde pequena já caçava com o pai e por isso
poderia liderar a situação de fuga, ou ainda lidar com o sequestrador. Com o
desenvolvimento do enredo, os flashbacks ganham novas conotações que funcionam
e criam mais densidade aos momentos. As pequenas
incursões da psicóloga de Kevin e seu fascínio por ele foram extremamente mal
exploradas, sem contar sua mistura entre psicóloga, investigadora e até mesmo
mãe do personagem, difícil saber em qual papel conseguiu ser mais enfadonha,
sendo a personagem que mais produziu péssimos momentos do roteiro.
Mas o possível maior problema do
filme não é ser um suspense apenas razoável e sim o que propõe. Ao revelar seu
principal tema, a glorificação das vítimas, pessoas que sofrem por serem
especiais, ou se tornam especiais por serem vítimas. Não só isto, como a
revolta destes para com todo o resto do mundo, pois a culpa deve recair sobre
todos. Tudo isto para no fim construir uma franquia de heróis, já que existe
uma referência à Corpo Fechado. Seria isto um sintoma da era das franquias de
universo compartilhado? Espero que não passe de uma febre rápida. Com efeito,
acaba por desperdiçar diversas propostas que foram produzidas durante o filme
como a relação de cada uma das personalidades, ou ainda a relação da mente e do
corpo que ficou em aberto numa suposta superioridade da mente sobre o corpo.
Dessa forma, Shyamalan apresenta diversas premissas extremamente interessantes
e que quanto mais vai afunilando para chegar no seu propósito de jornada
heroica daqueles que sofrem, vai tornando seu filme mais caricato e frágil.
Portanto, Fragmentado, tendo em
vista apenas o suspense, consegue ser interessante, ainda mais com a estupenda
performance de James McAvoy, infelizmente o péssimo roteiro que começa a
mostrar seus venenos quanto mais avança torna o filme fraco no que se propõe.
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