sexta-feira, 21 de julho de 2017

2016 – Fragmentado (Night M. Shyamalan, EUA) *** (3)

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O mais novo filme de Shyamalan surgiu como um retorno às suas origens nos bons suspenses (ao lado de A Visita), que de fato, nunca foram tão bons assim. Fragmentado traz uma premissa muito interessante, mas ao se revestir pelos diálogos pueris e pela abordagem heroica do diretor se torna fraco. Narrando a história de Kevin e suas vinte e três personalidades ao sequestrarem três jovens.
            
Esteticamente, a princípio, o filme apresentava algo de interessante. O esconderijo do protagonista em seus tons cinzas e beges criavam uma sensação de lugar qualquer e comum, assim como certo minimalismo que perdurava nas cenas. Os canos e a maneira com qual o diretor usava da pequena profundidade de campo, colocando o rosto dos personagens extremamente em foco criavam uma boa sensação claustrofóbica. Entretanto, esses são os únicos recursos que o diretor acaba por usar em todo decorrer do filme, além da fantástica atuação de James McAvoy, que muda de forma impressionante cada músculo de seu rosto para compor as diversas personas de Kevin, claro, que as 23 personalidades não surgem durante o filme, pode-se dizer que pelo menos cinco delas têm algum tempo de tela.

As outras atuações foram muito mal aproveitadas, principalmente a da Ana Taylor-Joy, como uma das garotas sequestradas, que até conseguiu construir uma boa personagem, mas que por conta das falhas de lógica do roteiro se tornou extremamente frágil. Sua personagem é a mais aprofundada das três sequestradas, a partir da inserção de flashbacks que a princípio pareciam servir para mostrar que desde pequena já caçava com o pai e por isso poderia liderar a situação de fuga, ou ainda lidar com o sequestrador. Com o desenvolvimento do enredo, os flashbacks ganham novas conotações que funcionam e criam mais densidade aos momentos.  As pequenas incursões da psicóloga de Kevin e seu fascínio por ele foram extremamente mal exploradas, sem contar sua mistura entre psicóloga, investigadora e até mesmo mãe do personagem, difícil saber em qual papel conseguiu ser mais enfadonha, sendo a personagem que mais produziu péssimos momentos do roteiro.
          
Mas o possível maior problema do filme não é ser um suspense apenas razoável e sim o que propõe. Ao revelar seu principal tema, a glorificação das vítimas, pessoas que sofrem por serem especiais, ou se tornam especiais por serem vítimas. Não só isto, como a revolta destes para com todo o resto do mundo, pois a culpa deve recair sobre todos. Tudo isto para no fim construir uma franquia de heróis, já que existe uma referência à Corpo Fechado. Seria isto um sintoma da era das franquias de universo compartilhado? Espero que não passe de uma febre rápida. Com efeito, acaba por desperdiçar diversas propostas que foram produzidas durante o filme como a relação de cada uma das personalidades, ou ainda a relação da mente e do corpo que ficou em aberto numa suposta superioridade da mente sobre o corpo. Dessa forma, Shyamalan apresenta diversas premissas extremamente interessantes e que quanto mais vai afunilando para chegar no seu propósito de jornada heroica daqueles que sofrem, vai tornando seu filme mais caricato e frágil.
          
Portanto, Fragmentado, tendo em vista apenas o suspense, consegue ser interessante, ainda mais com a estupenda performance de James McAvoy, infelizmente o péssimo roteiro que começa a mostrar seus venenos quanto mais avança torna o filme fraco no que se propõe. 

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