
Hong
Sang-Soo mais uma vez encarna o espírito de realizador frustrado e busca com
este filme fazer mais um comentário sobre os seus próprios filmes. Parecendo um
sucessor de Como Você Sabe de Tudo, porém mais sútil e poético. Contando a
história da estreia de um estudante de cinema, usando de quatro capítulos
metalinguísticos.
Nam Jin-Goo protagoniza o primeiro
capítulo do filme, tentando produzir outro filme, discutindo sobre a possível
morte do cinema não comercial. Percebe-se bastante sua relação com o professor
Song, uma relação na qual ele o coloca num pedestal. No dia da exibição do seu
primeiro filme, chega bêbado ao local e inicia um discurso sobre o mesmo, algo
como o que já havia sido dito em outros filmes, mas ainda de forma mais
poética, afirmando que não se procura um tema em um filme. Não se assisti
cinema por um tema, pois assim tudo iria correr por apenas uma direção e ainda
ressalta que a experiência cinematográfica é como conhecer uma pessoa, um
encontro, cada vez que assisti descobre-se coisas novas. “Os professores sempre
perguntam qual o assunto? ”. “Mas, antes de perguntarem, já não estamos
reagindo ao filme? ”. Apesar de um belo discurso que compara o cinema e a vida
de forma indissociável, uma mulher traz à tona um assunto que ele não gostaria
de ouvir, sobre um caso que ele tivera com uma colega anteriormente. Já
ressaltando algo que se tornou, com o passar dos anos, mais notório na filmografia de Hong
Sang-Soo, como seus filmes são indissociáveis das coisas boas e ruins de sua
vida, polêmicas ou não. Logo, o primeiro capítulo acaba e os outros três
capítulos falam sobre o passado, mas de forma desconexa, o segundo é sobre a
relação de Nam com Oki, sua colega. O terceiro com a confusa relação à três que
Nam, Oki e Song desenvolvem e por fim o último capítulo é um curta produzido
por Oki, àquele que dá nome ao filme como um todo. Este último e bem curto
capítulo consegue ser o mais poderoso.
O filme de Oki é sobre ela levar
Song e Nam para o mesmo lugar em momentos diferentes de sua vida. Ela mesma
narra as situações e faz a comparação entre eles, são locais iguais, mas as
ações mudam de acordo com os personagens. Ou seja, ratifica a proposta dos
encontros e de que o filme é como uma pessoa. Pois a situação pode ser sempre a
mesma, mas dependendo de qual personagem estiver inserido no momento o decorrer
da história irá mudar, a direção será diferente, tudo será diferente. É isso
que é proposto nos quatro capítulos, o primeiro serve de introdução, é como se
Hong Sang-Soo usasse de seus personagens para fazer os seus próprios
comentários sobre a indústria e o fazer cinema. Então, existe um domínio de
cada personagem sobre os seus capítulos e como isto altera a perspectiva do
espectador sobre a cena, pois o que estão vendo não é o todo e sim algo como a
própria percepção do personagem sobre a cena de encontro com a percepção do
próprio diretor, são inúmeros encontros de ficção, realidade e percepções que
formam os filmes do diretor coreano.
Não é à toa que insere alguns momentos que parecem não fazer
sentido algum ao filme, mas à sua vida fazem bastante, como por exemplo quando
Nam ao adormecer no parque e é acordado por uma mulher tirando fotos suas, esse
acontecimento realmente ocorreu na vida do diretor, foi assim que conheceu sua
esposa. Existem outros momentos de puro simbolismo, quando, por exemplo, o
professor Song cospe um polvo e resolve desistir de sua carreira de professor,
para seguir a de diretor, expelindo aquilo que o prendia de alguma forma, ou
ainda, o comentário final de Oki sobre a produção de seu curta que não adianta
se aproximar o máximo da realidade, ou ainda de uma verdade, no cinema, pois
não conseguirá, o máximo que se pode fazer é misturar e exprimir uma
experiência cinematográfica, que está colada a vida sem nunca ser ela. O
acontecimento e expressão são indissociáveis ao ser humano, pois somos seres de
linguagem, dessa forma existe um processo de retroalimentação do que é e do que
se diz sobre, o cinema e sua imagem em movimento apreendem essa proposta de uma
maneira poderosa.
Dessa forma, O Filme de Oki é um
trabalho cuidadoso do diretor que a partir de suas próprias experiências
constrói diferentes olhares sobre a mesmas situações. Assim como, usa da
montagem de uma maneira pouca coesa e recortada para estratificar tais visões. Talvez
ressaltando o encontro que se dá com um filme, na qual a percepção sobre este
muda sempre.
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