terça-feira, 18 de julho de 2017

2010 – O Filme de Oki (Hong Sang-Soo, Coreia do Sul) ****1/2 (4.5)

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Hong Sang-Soo mais uma vez encarna o espírito de realizador frustrado e busca com este filme fazer mais um comentário sobre os seus próprios filmes. Parecendo um sucessor de Como Você Sabe de Tudo, porém mais sútil e poético. Contando a história da estreia de um estudante de cinema, usando de quatro capítulos metalinguísticos.
            
Nam Jin-Goo protagoniza o primeiro capítulo do filme, tentando produzir outro filme, discutindo sobre a possível morte do cinema não comercial. Percebe-se bastante sua relação com o professor Song, uma relação na qual ele o coloca num pedestal. No dia da exibição do seu primeiro filme, chega bêbado ao local e inicia um discurso sobre o mesmo, algo como o que já havia sido dito em outros filmes, mas ainda de forma mais poética, afirmando que não se procura um tema em um filme. Não se assisti cinema por um tema, pois assim tudo iria correr por apenas uma direção e ainda ressalta que a experiência cinematográfica é como conhecer uma pessoa, um encontro, cada vez que assisti descobre-se coisas novas. “Os professores sempre perguntam qual o assunto? ”. “Mas, antes de perguntarem, já não estamos reagindo ao filme? ”. Apesar de um belo discurso que compara o cinema e a vida de forma indissociável, uma mulher traz à tona um assunto que ele não gostaria de ouvir, sobre um caso que ele tivera com uma colega anteriormente. Já ressaltando algo que se tornou, com o passar dos anos, mais notório na filmografia de Hong Sang-Soo, como seus filmes são indissociáveis das coisas boas e ruins de sua vida, polêmicas ou não. Logo, o primeiro capítulo acaba e os outros três capítulos falam sobre o passado, mas de forma desconexa, o segundo é sobre a relação de Nam com Oki, sua colega. O terceiro com a confusa relação à três que Nam, Oki e Song desenvolvem e por fim o último capítulo é um curta produzido por Oki, àquele que dá nome ao filme como um todo. Este último e bem curto capítulo consegue ser o mais poderoso.
            
O filme de Oki é sobre ela levar Song e Nam para o mesmo lugar em momentos diferentes de sua vida. Ela mesma narra as situações e faz a comparação entre eles, são locais iguais, mas as ações mudam de acordo com os personagens. Ou seja, ratifica a proposta dos encontros e de que o filme é como uma pessoa. Pois a situação pode ser sempre a mesma, mas dependendo de qual personagem estiver inserido no momento o decorrer da história irá mudar, a direção será diferente, tudo será diferente. É isso que é proposto nos quatro capítulos, o primeiro serve de introdução, é como se Hong Sang-Soo usasse de seus personagens para fazer os seus próprios comentários sobre a indústria e o fazer cinema. Então, existe um domínio de cada personagem sobre os seus capítulos e como isto altera a perspectiva do espectador sobre a cena, pois o que estão vendo não é o todo e sim algo como a própria percepção do personagem sobre a cena de encontro com a percepção do próprio diretor, são inúmeros encontros de ficção, realidade e percepções que formam os filmes do diretor coreano.

Não é à toa que insere alguns momentos que parecem não fazer sentido algum ao filme, mas à sua vida fazem bastante, como por exemplo quando Nam ao adormecer no parque e é acordado por uma mulher tirando fotos suas, esse acontecimento realmente ocorreu na vida do diretor, foi assim que conheceu sua esposa. Existem outros momentos de puro simbolismo, quando, por exemplo, o professor Song cospe um polvo e resolve desistir de sua carreira de professor, para seguir a de diretor, expelindo aquilo que o prendia de alguma forma, ou ainda, o comentário final de Oki sobre a produção de seu curta que não adianta se aproximar o máximo da realidade, ou ainda de uma verdade, no cinema, pois não conseguirá, o máximo que se pode fazer é misturar e exprimir uma experiência cinematográfica, que está colada a vida sem nunca ser ela. O acontecimento e expressão são indissociáveis ao ser humano, pois somos seres de linguagem, dessa forma existe um processo de retroalimentação do que é e do que se diz sobre, o cinema e sua imagem em movimento apreendem essa proposta de uma maneira poderosa. 
            
Dessa forma, O Filme de Oki é um trabalho cuidadoso do diretor que a partir de suas próprias experiências constrói diferentes olhares sobre a mesmas situações. Assim como, usa da montagem de uma maneira pouca coesa e recortada para estratificar tais visões. Talvez ressaltando o encontro que se dá com um filme, na qual a percepção sobre este muda sempre.

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