
Um dos filmes mais conhecidos do
diretor, por ter vencido prêmios importantes, é mais um passo aos toques mais
explícitos do diretor. Um de seus filmes mais engraçados, como seu próprio
título indica, Ha Ha Ha é a história de dois amigos que se encontram enquanto
estão preparados para ir embora do país, em busca de uma nova vida, e contam
como visitaram a mesma cidade na mesma época e não se encontraram, construindo
um emaranhado de acontecimentos que se conectam uns aos outros pelo acaso.
A primeira proposta interessante da
narrativa é a diferença estética do presente, em que os amigos se encontram e
do passado. O primeiro é narrado apenas com fotografias em preto e branco,
acompanhadas de vozes em off em que eles dialogam e bebem sobre o passado,
enquanto no passado temos imagens em movimento, coloridas e iluminadas.
Enquanto um parece estagnado e melancólico, o outro parece fluído, cheio de
mudanças e até certo ponto feliz, assim dando mais ainda a sensação do poder da
nostalgia nos personagens do presente. Hong Sang-Soo ainda mistura as histórias
rapidamente, fazendo com que os dois passem um pela história do outro sem nem
mesmo tomarem noção, ainda, deixando notório como cada ação em uma história
afeta a outra. Pois Jo Moon-kyung, o protagonista da história, se apaixona por
uma mulher que trabalha num local histórico, que por sua vez namora um homem
que se diz poeta e tem uma ótima relação com a mãe do protagonista, este homem
é ainda um amigo de Joong-sik, o segundo protagonista da história, aquele que
fecha o ciclo do acaso ao se conectar com Moon-kyung. Ainda existe um belo uso
dos sonhos, que surgem sem aviso prévio, mas que como de costume nos filmes de
diretor, assumem uma posição de impulso para mudanças nos personagens,
percebendo também sua relação com o desejo do real e a condensação onírica de
informações. Apresentando assim um dos momentos interessantes de toda
filmografia de Hong Sang-Soo, um encontro entre Moon-kyung e o Almirante Yi,
uma figura histórica coreana enaltecida por Seong-ok, a mulher por qual o
protagonista está apaixonado. Esta cena, em especifico, trabalha o principal
conceito do filme, o que é a coisa em si? O que é o essencial? Quando o
almirante pergunta para Monn-kyung o que ele está segurando, o protagonista
responde uma folha, só depois de insistir percebe que o objeto em si pode ser mais
do que é dito dele, deve se buscar o bom nas coisas, pois só as pessoas podem
identificá-las como tal, não existe uma coisa ruim ou boa, o bem e o mal,
existem apenas como as coisas podem funcionar para um e para outro.
A maioria dessas discussões rondam
as duas histórias, Jaeng-Ho é o poeta pelo qual Seong-ok se encontra, ele
questiona sobre a coisa em si, afirmando que ela não existe e por isso faz o
que quer. Pouco ligando para os outros de fato, utilizando isto de
justificativa para seu descaso para com o outro, sendo o máximo de um pseudo existencialista,
ou melhor, um existencialista que não entendeu Sartre. Ele, por mais que goste de Seong-ok, a trai
com outras, pois necessita sentir-se livre, quando os dois brigam, Seong-ok
pede para que ele suba em suas costas, como se precisasse de uma dor física
para somatizar a dor mental que era estar com ele. Enquanto se tem essa
discussão rondando o enredo do protagonista, um homem que parece não saber o
que quer de sua vida, perdido, buscando o significado das coisas, o enredo do
segundo protagonista é mais simples, sem grandes incursões narrativas, sendo
este muito mais determinado. Ele tem uma mulher que pretende casar, mas apenas
não construiu forças o suficiente para isso, ao passo que a trai com uma
comissária de bordo. Vivendo uma comum história no universo de Hong Sang-Soo, porém,
sendo um personagem crucial para entender os outros, ele instiga todas as
discussões, as estende, pois no fundo não se entende, não difere tanto de
Moon-kyung. Dessa forma, existe uma poesia simples que discute à maneira na
qual as pessoas vivem suas vidas, o que elas buscam para serem felizes, como
constroem sua ética, como o curso do acaso é importante para que o ser humano
experimente a vida como ela é. A ética só existe com a possibilidade, o determinismo
sempre será avesso a ela.
Portanto, mais uma vez Hong Sang-soo
em uma estrutura narrativa interessante discute, com uma história sobre amor, a
ética e as relações dos sujeitos. Um pouco mais cômica que o habitual, leve,
porém ainda muito profunda, simples, porém complexa, esteticamente usual, mas
ainda assim extremamente única.
Nenhum comentário:
Postar um comentário